Dezembro 02 2013

Em janeiro e fevereiro deste ano a direção do Record, liderada por Alexandre Pais, enfrentou a animosidade dos adeptos do Benfica, por causa da aplicação dos reais critérios de desempate ser favorável ao FC Porto, por ter empatado a dois golos no Estádio da Luz, enquanto a Liga do Dr. Figueiredo e de outros meios de comunicação atribuíam esse lugar ao adversário, observando apenas metade dos critérios de desempate.

 

Esta época, são os adeptos do Sporting a reclamarem por motivo idêntico. O Record nunca foi nem será um jornal seguidista ou acéfalo e considera o aditamento regulamentar uma aberração sem sentido. Se o campeonato terminasse hoje, o Benfica ficaria à frente, mas basta ao Sporting alcançar no Estádio da Luz um resultado melhor do que o 1-1 da primeira volta para esta ordem se inverter. Na classificação que publica todos os dias, o Record é, aliás, o único meio de comunicação que explica os critérios de desempate utilizados.

 

E estes são os que se utilizam em todos os campeonatos europeus (à exceção do inglês) e nas competições da UEFA e da FIFA. Curiosamente, nesta altura, o Benfica está na situação exatamente inversa no seu grupo da Liga dos Campeões: podia ter ganhado por 10-0 em Bruxelas que nunca teria ultrapassado o Olympiacos. E, no grupo do Estoril na Liga Europa, entre o Friburgo e o Liberec, passa-se exatamente o mesmo: a melhor diferença de golos não basta aos checos para se classificarem à frente dos alemães.

 

O primeiro critério de desempate numa prova de futebol é o número de pontos somados: se por acaso Benfica e Sporting tivessem empatado os jogos de ontem, quem estaria no primeiro lugar da tabela seria o FC Porto, porque somou três pontos frente aos leões. Esta é a regra, invertê-la durante 29 jornadas para a reconhecer apenas no último dia é um erro de facto que um jornal com as responsabilidades do Record nunca deixará de denunciar e tentar corrigir. Sabemos que a Liga espera a melhor oportunidade para repor o bom senso no seu regulamento, anulando esta absurda cláusula de exceção, e devia, no seu site, elucidar os leitores de que a tabela provisória não corresponde aos critérios finais.

 

Enquanto isso não acontecer, Portugal é o único país do Mundo cujo campeonato tem duas classificações: uma provisória para 29 jornadas e outra definitiva para a 30.ª. Quanto a Record, desde sempre e para sempre, terá apenas uma, a que se aplica de igual forma a todos os concorrentes, todos os dias.

Fonte: Record

publicado por Benfica 73 às 10:57

Agosto 21 2012

Havia uma curiosidade na estreia do Benfica, a apresentação do novo Fábio Coentrão em mais um golpe do génio criativo de Jorge Jesus. Melgarejo, que há um ano tinha marcado na própria baliza no Estádio do Dragão e, com isso, ganho a ordem do treinador do Paços de Ferreira para nunca mais se aproximar da própria grande área, foi a vítima escolhida para desempenhar o papel de protagonista negativo que o técnico do Benfica gosta de ter nas suas equipas, na linha de Roberto e Emerson.

Como o que tem de correr mal, sempre corre mal, o pobre do Melgarejo, eleito por ser esquerdino, rápido e combativo, tornou-se num alvo em movimento, um canhoto com uma cruz na testa, para degustação dos adversários e azia dos benfiquistas. A culpa, evidentemente, não é dele, um jovem de enorme potencial, com recursos ofensivos soberbos, eventualmente mais objectivo que alguns dos abundantes extremos do plantel. Se não fosse do Benfica, aliás, Melgarejo teria lugar no ataque de qualquer outra equipa nacional, depois de ter marcado dez golos no ano de estreia, com a camisola de um clube modesto.

Como nos anos anteriores, quando os erros de casting se enfiavam pelos olhos dos exigentes adeptos benfiquistas, a ponto de gerar antipatia e vaias regulares do 3.º Anel, imerecidas para os jogadores e irrelevantes para o treinador, Melgarejo já vai a caminho de, dentro de pouco tempo, expiar pessoalmente a frustração dos pontos perdidos e dos objetivos adiados.

Esta maldição que ameaça abater-se sobre o simpático paraguaio é tema para aquecer o final do verão, com muito mais interesse do que a designação do dirigente que envergonha mais os portugueses. Porque neste processo surrealista de gestão desportiva do Benfica, Melgarejo é o único que não pode fazer melhor.

Fonte: Record

publicado por Benfica 73 às 01:32

Maio 07 2012

Um grupelho de duas dúzias de indigentes aproveita os jogos do Benfica e a exposição mediática para insultar e ameaçar profissionais e dirigentes do clube, queimando em lume branco as figuras principais, do presidente ao treinador, passando por jogadores outrora intocáveis.

 

Estas manifestações e o vandalismo através de pichagens inserem-se numa campanha com o claro intuito de colocar pressão num cenário de eleições, que se realizam num contexto muito condicionado pelas absurdas limitações estatutárias aos potenciais candidatos. Há uma mão oculta, um móbil e um “modus operandi”, visando agravar a situação interna do clube, a partir da descredibilização da equipa de futebol, para desembocar numa mudança de poder, depois de este cair nas ruas.

 

A frustração dos benfiquistas é compreensível, depois de a equipa ter transformado uma vantagem de cinco pontos num atraso de seis em apenas 11 jornadas – um ponto perdido por jornada, o que faz do candidato ao título apenas a sexta equipa da Liga, de janeiro para cá, um retrato acabado da queda súbita e abrupta do rendimento físico, tático e técnico, que Jorge Jesus não consegue explicar.

 

Embora de pouca representatividade, estas “manifs” que rivalizaram na noite de domingo com os festejos tradicionais de maio na Avenida dos Aliados, deixam à vista de todos um dos aspetos mais frágeis da liderança encarnada, que é a ausência de uma voz de comando, uma intervenção norteadora nos maus, mas também nos melhores momentos. As vozes do Benfica e a forma incongruente como intervêm, sempre em reação, nunca em prevenção, colocam muitas vezes o clube a ridículo, pela inconsistência.

 

O longo consulado de Luís Filipe Vieira foi-se fortalecendo à custa de alguns sacrifícios de colaboradores, que caíram e foram substituídos sem que o presidente sofresse o mesmo desgaste, mas o método parece agora exausto. O apagamento de Rui Costa, o intrigante regresso de António Carraça com poderes reforçados e a comunicação errática e inconsistente, ultimamente a cargo de um vice-presidente incompreensível acima das hordas radicais, são três vetores deste contínuo desgaste.

 

Quando chega o tempo de encontrar justificações para o insucesso, além da súbita descoberta das insuficiências de Jorge Jesus, e não apenas as comunicacionais, os fatores de baixo perfil ganham relevância e acabam por expiar os males. O Benfica perdeu o pé nas relações institucionais, com o incompreensível apoio a Fernando Gomes desde o tempo da Liga, não consegue desatar o nó dos direitos de televisão e não apresenta um dirigente que se imponha em qualquer mesa a que também se sente o FC Porto.

 

O modelo parece esgotado, mas Vieira tem a ambição de permanecer no cargo e impôs uns estatutos que praticamente impedem qualquer oposição. Com a lucidez e visão que nos habituou, vai manter Jesus, Carraça e Rui Costa nas suas funções, a marcar passo. E o Benfica, continuando a perder terreno, só será discutido pelos sócios normais em surdina e pelos radicais em operações de guerrilha urbana. Com o risco de elevada degradação quando deixar de haver tinta branca para apagar os graffiti.

Autor: JOÃO QUERIDO MANHA

Fonte: Record

publicado por Benfica 73 às 01:02

Novembro 14 2011

Um plano televisivo sem legendas mostrava-nos os presidentes do Braga, do Benfica e da Liga, firmes, hirtos e com caras de estarem sentados sobre uma almofada de punaises. No relvado, o espetáculo tinha parado por falta de corrente elétrica, enquanto nas bancadas da Pedreira energia era o que não faltava, fazendo ecoar por todo o país os sons da falta de civismo que grassa no reino.

Imaginar o que passava pelas mentes daqueles três Césares à varanda do Circus Maximus transporta-nos para o domínio do surreal, ao invés da premissa de dignificação de um espetáculo de qualidade, credibilidade e seriedade. O estádio de Souto Moura, oitava maravilha da arquitetura desportiva, entrava no anedotário das histórias mal contadas, por negligência do eletricista, com a sua caldeira topo de gama a oferecer aos visitantes o prazer de um duche frio em cima da banhada tática que lhes custara a liderança isolada do campeonato.

Os caprichos de um fusível ou de um termoacumulador não entravam no imaginário do “outro mundo” a que aludiu o guarda-redes Artur Moraes, sem menosprezar o seu conhecimento de causa, mas enfileiram agora na galeria das distrações a que um determinado sector recorre por sistema.

Porém, a falta de água quente que suscitou uma defesa da honra pela SAD minhota e um salomónico esclarecimento do chefe da Liga, testemunha da caldeira danificada, nada significa quando dois dos intervenientes no jogo acusam um adversário de insultos racistas. É uma situação extremamente grave que carece tomadas de posição firmes de cada um dos caudilhos da tribuna Axa, embora tenda a evoluir à revelia das instituições a caminho do poço sem fundo dos processos disciplinares hipócritas em que estes dirigentes normalmente expiam suas gafes e incongruências.

Liga e Federação vêm há anos encolhendo os ombros ao recrudescimento do fenómeno decorrente das manipulações em torno da famigerada Regionalização que foi colocando os genuínos em pé de guerra contra “mouros” e “espanhóis”, consoante as cores das camisolas. Os insultos contínuos, histriónicos e provocadores animaram a banda sonora daquele jogo até ao primeiro apagão, gritando seu ódio agudo para todo o país ouvir e se amedrontar.

Apesar da aposta declarada numa divisão dos portugueses em azuis e encarnados como forma de fortalecer as lideranças, ninguém, até ontem, associara tal antagonismo regionalista em sementes de racismo, perturbadores da sociedade. As hostes “organizadas” com o patrocínio dos clubes e SAD violam a lei antiviolência com assustadora frequência sem que, até hoje, esse mecanismo, dos mais avançados da Europa, tenha sido acionado por quem de direito, custando milhões ao erário público em operações de segurança pública.

Nenhum dos candidatos a presidente da Federação mostra preocupação com o perigo de explosão desta caldeira de intolerância que vem transformando as confortáveis bancadas das nossas pérolas de arquitetura desportiva em trincheiras para uma comandita alienada. A caldeirada que os desassossega é diferente, embora também vista de preto.

Autor: João Querido Manha

Fonte: A Record

publicado por Benfica 73 às 02:09

Novembro 02 2011

O Estádio da Luz é o símbolo de uma nova ideia de espetáculo desportivo, que só em parte e unilateralmente foi uma aposta ganha. A sua inauguração, há oito anos, coincidiu, por exemplo, com uma concorrência mais transparente no espetro televisivo com a entrada das televisões privadas no monopólio dos meios associados ao sistema dominante.

Neste período, o Benfica e os outros clubes grandes cresceram nas vertentes comerciais, seguindo as orientações da UEFA, e conseguiram atingir um patamar desportivo internacional. Mas a sensação de uma vida boa, moderna, agrafada à conquista da organização do Euro-2004, fez o futebol português optar por ir vivendo com uma ostentação inconsciente e num estado de euforia permanente, sempre pronto a dar mais um passo para o abismo, fazendo crescer os passivos de forma criminosa.

As pequenas alterações conjunturais foram mentindo piedosamente aos decisores e aos seguidores, simulando um estado de transformação e desenvolvimento que, na realidade, nunca existiu. O Estádio da Luz, emblematicamente apresentado como um dos recintos mais versáteis e disponíveis da Europa, só tem agenda para 5 por cento dos dias do ano, vendendo um monoproduto – como todos os outros recintos novos, cujos administradores vivem aterrorizados pela síndroma da relva dos U2, aquela que não tem conserto.

Os estádios estão para o futebol português como os fundos estruturais estiveram para o país, ao não serem aproveitados como uma via de desenvolvimento global, acabando por reduzir-se a uma imagem ilusória de modernidade, um enquadramento bonito que não permite ver com a nitidez e o distanciamento necessários as soluções para um novo modelo desportivo e de produção de espetáculos honestos.

Oito anos passaram e pouco mudou, para lá da falência da formação de jogadores portugueses em favor de uma estratégia suicidária de import-export de promitentes talentos estrangeiros. Em volta, nos estádios confortáveis, o ambiente ultrafanatizado, a falta de confiança no jogo e de respeito pelo adversário, a impossibilidade de fazer convergir as opções concorrenciais e a dependência de um sistema em que um parceiro, parasitário, se perpetua como único a lucrar – tudo permanece igual há 25 anos, quando os clubes, tecnicamente falidos, começaram a financiar-se com as migalhas de direitos televisivos, a que se juntam atualmente as sobras das apostas ilegais.

Só agora Benfica mostra-se pronto a ver-se livre desse monstro sugador, abrindo uma válvula que pode começar a libertar a indústria do futebol em novas vias comunicacionais e, com o tempo, deixá-lo progredir livre de dependências perversas e das limitações à competitividade de que tanto se queixam os clubes quando não ganham e, tendencialmente, porque ganham quase sempre os mesmos.

Ao contrário do que disse Jorge Jesus, os “políticos” que vão dirigindo o futebol há décadas têm uma enorme capacidade de resistir à mudança e às tentativas de renovação, perpetuam-se no sistema e ameaçam fazer perdurar o seu espírito imobilista, para lá da vida útil dos ainda jovens estádios. Foi mais fácil construir estádios do que limpar o jogo.

Autor: JOÃO QUERIDO MANHA

Fonte: Record

publicado por Benfica 73 às 02:11

Setembro 20 2011

Os movimentações dos principais dirigentes dos clubes por causa das eleições da Federação Portuguesa de Futebol, em função das mudanças estatutárias, acrescentaram uma nova faceta ao “milieu”, confirmando o apagamento e perda de poder dos líderes associativos e o pânico do xerifado em relação à transferência do controlo dos árbitros.

Transportando-nos aos saudosos tempos dos xitos e das noitadas do Conde Redondo, anteriores à invenção do telemóvel e das escutas digitais, quando os principais dirigentes associativos se assumiam como pontas-de-lança dos emblemas apenas a pretexto do fervor emblemático e de umas generosas excursões europeias em regime de pensão muito completa. Eram tempos pré-históricos, em que a hierarquia das Associações correspondia às ambições dos clubes, por delegação, e em que uma “manutenção” ou uma subida de divisão, nem que fossem por via administrativa, valia tanto como um título para as maiores. Os dirigentes associativos eram pardos e de falinhas mansas, mas agressivos e canalhas q.b., sem contemplações perante os objetivos supremos, deixando como legado uma lógica de poder de cariz familiar.

Com o advento da Liga “profissional” e da mediatização frenética da competição entre clubes, os associativos desceram à condição de amanuenses e deixaram de projetar qualquer figura de referência. Fazem o seu trabalho meritório, dividem umas pequenas benesses que escorrem dos sucessos das seleções, mas mal conseguem resolver o problema da falta de árbitros para o futebol amador.

Observa-se assim com naturalidade este movimento dos clubes profissionais a impor os seus interesses tão particulares a um mundo que pode ficar bloqueado e caótico, quando os futuros executivos concentrarem o seu labor na chamada alta competição. A evolução estatutária e a redefinição democrática são bem-vindas, mas a preocupação do legislador quase exclusivamente com a regulação do desporto profissional pagará um preço muito elevado.

O avanço dos nomes do actual e do anterior presidente da Liga é constrangedor. Traduz a capitulação de um mundo que há décadas deixou de formar dirigentes fora das turmas de Direito, com as perversidades que se conhecem. As candidaturas surgem de forma meramente circunstancial, sem conteúdo nem ideias, apostando apenas no reconhecimento por proximidade – desconcertante no caso de Soares Franco.

O controlo do Conselho de Arbitragem continua a ser a preocupação central e condicionará todas as “alianças” necessárias a um desfecho satisfatório para os clubes mais poderosos, podendo voltar a chegar, no limite, à aceitação por parte dos adversários do sistema de um dirigente comprometido com o “Apito Dourado”.

E representa, em última análise, a extrema pobreza de recursos humanos a que o futebol, ao contrário de outras modalidades desportivas, se deixou chegar, em contraciclo com a afirmação internacional dos jogadores e treinadores. O futebol português não consegue projetar um líder respeitável, desinteressado, insuspeito – e, assim, esta cultura de guerrilha, falta de desportivismo e de tráfico de influências manter-se-á por mais algumas gerações, fazendo-o perder terreno de forma irreversível para os campeonatos internacionais mais mediatizados.

Autor: JOÃO QUERIO MANHA

Fonte: Record

publicado por Benfica 73 às 01:14

Setembro 10 2011

O dia 1 de Setembro podia ter sido terrível para muitos administradores e diretores do futebol profissional se, ao contrário do que fazem crer as prebendas dos seus cargos, alguma instância superior julgasse sumariamente os seus erros. Isto é: em qualquer empresa privada seriam intoleráveis atos de gestão de recursos humanos a redundar em erros de casting, estipêndios supérfluos e a extraordinária aquisição de mais uma enorme dose de “pouca sorte”, pronta a servir embrulhada em erros de árbitros escrutinados cirurgicamente.

Foram contratados alguns jogadores de qualidade e de rendimento mínimo garantido, em particular pelo Benfica, mas a maioria provém de catálogos de classe B que cirandaram nos últimos meses por cima das secretárias dos enfatuados “managers” nacionais e são más escolhas e, seguramente, maus negócios para os respetivos acionistas.

O trabalho de recomposição de um plantel competitivo é complexo e stressante, merecendo tolerância apenas em função das diferenças de orçamentos e responsabilidades. Mas não justifica os erros que foram cometidos e que, entre outras evidências, levaram à exclusão de nomes sonantes das listas da UEFA.

No meio das deambulações do mercado, o comportamento da Seleção de Sub-20 no respetivo Mundial agitou consciências e acionou espíritos bem-intencionados, num pequeno frenesim de desejos irrealizáveis, como a recuperação das equipas portuguesas para os jogadores portugueses. As comparações correm sempre o perigo de resvalarem para a falácia: nenhum jogador da Seleção de Sub-20 de Portugal tem lugar numa equipa de topo do campeonato nacional e poucos clubes de segunda linha lhes podem pagar os salários que um bom agente internacional lhes garante em emblemas europeus de segundo plano.

Os jogadores, portugueses ou sul-americanos, querem atuar por opção nos clubes europeus e apenas veem os principais clubes nacionais como plataformas de lançamento desses objetivos. Preferem um clube espanhol em risco de descer de divisão a um português de Liga dos Campeões, porque realmente o futebol está tomado por uma lógica de mercenarismo, em que os diretores são senhores da guerra, os treinadores sargentos de campo e os jogadores soldados da fortuna.

Aimagem de um Ricardo Carvalho, portuguesíssimo da Silva, passado para trás na Seleção por um filho de imigrante e por dois naturalizados, reflete a confusão mental decorrente do atraso de adaptação dos adeptos comuns ao futebol comercial. Tropas de choque recrutadas no Mundo por traficantes de talentos, afogando o amor à camisola com aparente insensibilidade pela perda de prestígio e tradição.

Passada a regulamento limitativo a defesa ingénua do jogador português contra o “excesso de estrangeiros”, com insondável condescendência a guineenses e cabo-verdianos, apenas reduziria a capacidade competitiva internacional dos nossos clubes, bem patente nas pré-eliminatórias de Agosto.

Villas-Boas e Falcão entram na classe dos “desertores”, Djaló e Postiga na coluna dos “danos colaterais”, os granadinos da Luz mera carne para canhão. Mas a vida continua e com mais uns sonhos para realizar, já em Janeiro.

Autor: JOÃO QUERIDO MANHA

Fonte: Record

publicado por Benfica 73 às 01:07

Agosto 24 2011

A notícia na arbitragem do futebol é quando o árbitro toma uma boa decisão. Olegário Benquerença tomou uma excelente no Guimarães-Porto ao assinalar o primeiro penalti em mais de um ano. Ora, um ato revolucionário é notícia.

Queixam-se os descrentes da clareza dos triunfos do Porto, por causa da coincidência de um novo arranque de campeonato confortado por um penálti desnecessário, que aquele tipo de jogadas raramente sofre punição e que, particularmente com o árbitro de Leiria, os contactos físicos dentro da área eram por norma julgados com grande latitude.

Benquerença era até ao começo desta segunda época da Liga de Fernando Gomes o árbitro que assinalava mais faltas longe das grandes áreas, apitando por tudo e por nada. Mas era também o mais parcimonioso em matéria de castigos máximos, seguindo a “cartilha” do mestre António Garrido de sancionar pelo critério de “perigo de golo”, que consiste em punir sistematicamente os avançados nos lances de contacto “duvidoso” na área.

Pois, no regresso a Guimarães, menos de um ano depois dos escândalos do Vitória-Benfica da época passada, Benquerença apresentou uma visão cristalina, assumindo sem medo decisões capazes de modificar irreversivelmente o desfecho de um jogo. Não deu razões para críticas como as de Manuel Machado, mas a invulgaridade da sua intervenção deixou a maioria dos analistas de pé atrás, como se alguma coisa não estivesse a bater certo. O Record, por exemplo, diz que decidiu bem, que realizou trabalho “positivo”, mas castigou-o na nota (3/5).

Ao contrário de outros colegas, que não mudaram nada com as últimas “formações” e reciclagens, Benquerença promete uma época em grande. Para já, deu um contributo extraordinário para acabar com as faltas ocultas de grande área nos lances de bola parada, que ele não terá tido capacidade de descortinar em 14 épocas na 1.ª divisão.

No passado do juiz leiriense não vislumbramos um lance como o do ingénuo Olímpio com o grande cabeceador Sapunaru. Num total de 175 jogos de 1.ª Liga, parece que nunca se confrontara com um defesa a agarrar um adversário num pontapé de canto – caso contrário não teria assinalado a míngua de 39 penáltis numa carreira tão longa, 33 dos quais (85%) antes de ingressar no quadro de elite da UEFA e da FIFA.

Benquerença não viu qualquer grande penalidade no último campeonato e apenas um nos últimos 36 jogos que dirigiu (por coincidência em Guimarães contra o Vitória). E até domingo passado, só conseguia enxergar faltas fora da grande área.

Ao recuperar a melhor visão das imediações das balizas, oferece uma nova perspetiva ao campeonato nacional, pois a “catimba” que os treinadores trabalham intensamente à porta fechada durante a semana, para impedir os avançados de marcarem mais golos, pode ter os dias contados. Caso contrário, vão chover penáltis.

Autor: JOÃO QUERIDO MANHA

Fonte: Record

publicado por Benfica 73 às 00:57

Junho 04 2011

A sociedade portuguesa divide-se quanto à justiça das medidas de coação extremas a dois jovens que cometeram um crime banal para qualquer cidadão que tenha tomado contacto com o sistema escolar nos últimos 25 anos. Justificou o juiz a prisão preventiva pelo “alarme social” que as agressões e sua divulgação na Internet teria levantado, quando podia ter colocado a ênfase na necessidade de dar exemplos a uma geração sem valores nem educação. Os meios tecnológicos, neste caso escutas ilegais com imagens, tornam-se válidos quando os alvos são jovens sem estrutura social, em vez de dirigentes, agentes, amanuenses e árbitros da bola.

Um crime do dia-a-dia da selva urbana reabriu a perspetiva do agendamento das leis ao mundo em que vivemos, fazendo vacilar alguns sectários de plantão, que ora abominam as escutas telefónicas que lhes mancham o sucesso desportivo, ora aplaudem a intrusão judiciária como validação de suspeitas ouvidas online de forma aleatória e avulsa.

Acossado pela investida do Ministério Público às transferências do futebol, o presidente do Benfica veio solicitar uma investigação à “primeira e à segunda instituição” do último campeonato, a propósito dos negócios de compra e venda de jogadores realizados nos últimos dez anos. Fez questão de alargar gratuitamente a suspeita que o atingiu ao FC Porto, apenas porque não sabe “do que vivem” os respetivos dirigentes.

Aentrevista de Luís Filipe Vieira redundou assim em estrondoso alarme social. Não apenas porque reconheceu a maior competência dos adversários, não apenas porque admitiu com um ano de atraso a falta de humildade que esteve na base do fracasso da equipa, não apenas porque mandou abaixo a instável sustentação de Rui Costa, não apenas porque as ameaças a jornais e jornalistas não passam de fator distrativo, imitação básica do que faziam “os do Norte” há uns 15 anos.

Jorge Jesus, o presidente do Benfica e todos os que estudam e aprovam contratações como a de Roberto não podem considerar “perfeitamente normal” que um dia lhes entre a Polícia em casa a pedir um contrato apenas por desconfiar que aquele guarda-redes só podia valer 8,5 milhões de euros se tivesse dez mãos. Não é nada normal, é extremamente alarmante.

Mais uma vez a rotação do vento apanha em cheio o Benfica, devolvendo-lhe na cara tudo o que atirou para o ar, a deixar evidente que, também nesta área, os seus responsáveis padecem de défice de competência em relação aos “do Norte”. Aliás, que relevância teria a conclusão de que as transferências do FC Porto partilham comissões superiores às do Benfica, se os negócios também são geralmente melhores?

Ocaso das transferências e a eventual constituição de arguidos, menos gravosa do que a prisão preventiva dos jovens exibicionistas do Facebook, incluindo um eventual julgamento, ajudarão os benfiquistas a desviarem-se, finalmente, da atração por dirigentes como o presidente do FC Porto, que tantos admiram e tomam como modelo. A menos que as escutas que levaram a PJ ao Estádio da Luz também não sejam para levar a sério.

Autor: João Querido Manha

Fonte: Record

publicado por Benfica 73 às 01:23

Maio 15 2011

Nas próximas semanas, os benfiquistas vão ser colocados à prova. A acostumarem-se à continuidade de Jorge Jesus como treinador, serão confrontados com a despedida de Nuno Gomes, a venda de Fábio Coentrão, Cardozo e Aimar, a impossibilidade de conservar Salvio, a inevitabilidade de manter Roberto na baliza e o braço de ferro de Maxi Pereira para sair a custo zero. Talvez algumas dessas previsões não se confirmem, mas o quadro geral é dramático para os encarnados, que prefeririam passar o tempo de um defeso sabático a contar reforços como quem sonha acordado. Bruno César, Nolito, Mora, Matic, Nuno Coelho e mais um magote, para contrapor às saídas de alguns dos melhores jogadores dos últimos anos, não asseguram uma transição de sucesso. Pelo contrário, a perspetiva de ver a equipa passar por severas transformações estruturais afigura-se tão inspiradora como a visão concreta das últimas semanas com Carole no posto de Coentrão, Jardel no de David Luiz, Menezes no de Aimar, e por aí fora.

Aassunção de poderes de gestão desportiva por Jorge Jesus, depois de conquistar um título quase exclusivamente pelo trabalho de campo, com jogadores escolhidos por antecessores, foi o maior erro da época catastrófica que o clube está a viver. Jogadores mal dispensados, erros de casting sucessivos, perda de competitividade e desequilíbrio do plantel, redundando em derrotas no campo de jogo, tudo embrulhado numa estratégia de comunicação incapaz de disfarçar a ânsia de poder.

Jorge Jesus deixou que a equipa de futebol baixasse drasticamente de rendimento. Mas não foi o responsável pelo boicote aos jogos fora de casa, pelo insólito acantonamento regional do clube através da redutora associação a Lisboa, pela inconsistente e errática batalha contra árbitros e seus dirigentes, pelo descontrolo emocional em momentos de pressão, passando por situações de conflito verbal e físico e acabando no inqualificável apagão da festa azul e branca, nem pela agregação dos adeptos de todos os outros clubes numa frente comum de antagonismo. De todos estes erros estratégicos, incluindo o reforço dos seus poderes, Jesus é inocente.

Oponto mais forte da estratégia do principal adversário do Benfica nos últimos 30 anos tem sido a capacidade de manipular factos, subverter realidades e exacerbar paixões, de que são paradigmas a história de Calabote, o “clube do Regime” ou a guerra santa contra Lisboa, como atividades distrativas da tomada de poder nas quatro linhas. Bom futebol montado em cavalos de Troia emocionais têm minado a identidade do Benfica ao ponto extremo de os dirigentes, esquecendo princípios, tentarem responder com as mesmas armas, embora só as consigam utilizar de um modo diletante e, cada vez mais, patético.

Se Jorge Jesus continuar no Benfica, deve ocupar-se exclusivamente da preparação da equipa de futebol, pois é bom nisso. Com inteligência, o clube precisa, precisa mesmo, de uma chicotada psicológica não no gabinete técnico, mas no back office: prospeção de valores, estratégia desportiva, relações exteriores e, em particular, clareza de comunicação, uma área onde nos últimos tempos o menos confuso tem sido o treinador.

Autor: JOÃO QUERIDO MANHA

Fonte: Record

publicado por Benfica 73 às 01:11

Abril 10 2011

Do bizarro discurso de vitória de André Villas-Boas, dando ideia de que o seu maior objetivo para o jogo de domingo era provar que o FC Porto era melhor, mais espetacular, mais artístico e mais eficaz que o Benfica, ressaltou o desmentido a algum expert que terá identificado mal as características inatas da equipa.

Glosando aquele discurso técnico-futebolês que invadiu os areópagos televisivos por via da chamada de treinadores desempregados à colação quotidiana, criou uma espécie de mausoléu virtual ao comentador desconhecido que terá chamado equipa “de transição” ao conjunto portista – com a transição a significar contra-ataque rápido e não a necessária passagem de um quadro de subalternidade mediática para o primeiro plano da admiração popular.

Após a única partida da época em que teve menos bola que o adversário, escolheu um dia mau para falar de “posse”, pois a estratégia para superar o Benfica consistiu em marcação e superioridade no jogo interior, bloqueio lateral e pressão sobre os portadores, abdicando da famosa circulação e ataque sustentado que, desde o tempo do futebolzinho apoiado, em marcha-atrás e a passo, se convencionou chamar de jogo à portuguesa desde os anos 70.

Num jogo com apenas quatro futebolistas portugueses, um dos quais naturalizado, as exaltações nacionalistas soam a forçado. Os clubes portugueses há muito deixaram de representar um padrão de jogo nacional genuíno, aculturados pela infiltração massiva de jogadores de outras nacionalidades e escolas, que faz os Coentrões e Moutinhos sentirem-se quase estrangeiros no próprio país. O retrato do futebol português mostra com mais definição falta de educação básica, confrontação regionalista e absoluta indiferença por valores desportivos, onde os responsáveis não se respeitam, os organismos se escondem e toda gente se considera acima de leis e regulamentos. Assim como André Villas-Boas tem dificuldades em situar os méritos da sua equipa campeã no justo patamar da hierarquia de preferências dos adeptos em geral e do espetro mediático em particular, também seria estulto que outras equipas de matriz bem mais genuína, em qualidade e quantidade, como o Sporting, se tivessem de considerar menos representativas, apenas porque não alcançam os melhores resultados.

Uma nova identidade surge, assim, como a verdadeira transição por realizar no ambicioso programa de André Villas-Boas, adepto de sempre e treinador do presente. Escorre do seu discurso de vitória, ligeiramente traído pela vertigem da falsa modéstia, a ambição de dar ao FC Porto uma projeção consentânea com o sucesso desportivo, começando a recuperar o enorme prestígio esbanjado ao longo de décadas por causa do discurso oficial que nunca resiste a dedicar os grandes triunfos aos palhaços e imbecis que lhe povoam as preocupações ao longo das temporadas.

Villas-Boas quer holofotes, quer notas artísticas, quer simpatia, quer Mundo, o que talvez seja pedir de mais quando se vai ao volante de um veículo blindado, mal-encarado, cuspindo fogo e com horizontes regionais. Talvez lhe possa servir de inspiração aquele ex-selecionador que, farto das ingerências políticas na federação, escolheu prosseguir a carreira num país civilizado e democrático como o Irão.

Autor: JOÃO QUERIDO MANHA

Fonte: Record

publicado por Benfica 73 às 00:36

Abril 01 2011

O estertor de Carlos Queiroz entrou agora na fase mais elegante. Os dignitários são tratados pelo nome do jardineiro, os raros aliados com a gosma dos puxa-sacos e a criadagem de sotaque com a xenofobia das castas superiores. O senhor Laurentino, o doutor Madaíl e o Pepe verde e amarelo representam o Mau, o Bom e o Vilão de um filme trágico-cómico, onde o herói vai nu, bancando o bobo, com a subtileza de um Paulo Futre pontapeando nas cabeças leoninas a ideia de uma ponte aérea entre o Ninho de Pássaro e o Alvalade XXI.

Os que se inquietam perante a ansiedade do homem que nos ofereceu dois títulos de campeão do Mundo são, provavelmente, menos do que a diferença de votos entre os primeiros dois candidatos à presidência do Sporting. E quase de certeza cabem num dos charters do Oriente.

Portugal virou a página e tenta refazer-se do distanciamento brutal que cavou em apenas dois anos pelo técnico natural de Moçambique. Há pessoas assim: o lado imperfeito e caprichoso do Mundo não gosta delas. Em concreto, a tenebrosa rede conspirativa dos assessores de imprensa que têm dirigido o Estado, abominando-o e perseguindo-o sem motivo.

A passagem de Queiroz pelo cargo de selecionador constituiu o que o candidato derrotado à eleição do Sporting definiria por uma “inconformidade”. Não foi ilegal, nem sequer ilegítima, mas foi muito difícil de suportar. A Seleção vem sendo resgatada a pulso por um líder sólido e bem apoiado, sem tempo para polémicas esquizofrénicas. O Sporting olha ansioso para o novo presidente para que também se assuma como chefe decidido e imperturbável, focado no essencial enquanto os outros esperneiam nos tribunais, procurando consolo pela rejeição popular no conforto dos pareceres jurídicos.

Para o último Campeonato do Mundo, a Federação assegurou ao selecionador as melhores condições humanas e materiais alguma vez disponibilizadas, satisfazendo-lhe todos os caprichos, incluindo a contratação de uma bateria de indefetíveis amigos apresentados como especialistas das mais esdrúxulas metodologias de treino, observação e organização. Diria ele depois que eram amadores – e por isso alguns comiam numa sala à parte.

O sufrágio de sábado em Alvalade também se apresentava como o mais concorrido, o mais disputado e o mais transparente, num clube de esmerada elevação, onde o estatuto dos sócios se mede pela competência da idade. Dizem agora que é antiquado, parado no tempo, desconforme.

O tempo tem mostrado que, na Seleção, existe vida depois de Queiroz, tal como há-de confirmar que, no Sporting, é tempo de tocar a reunir e passar à frente. As guerras fratricidas, tal como as vendettas pessoais sobre quem não puxa-saco, minam a vida das instituições e contribuem para a autodestruição de pessoas.

Queiroz é um caso perdido, exceto se emigrar para um país a sério onde lhe façam “justiça”, mas Bruno de Carvalho só precisa de ficar sossegado para se constituir numa reserva moral do Sporting, preparando-se para receber, em conformidade, um poder que está tão fragilizado como um selecionador rodeado de fantasmas.

Autor: João Querido Manha

Fonte: Record

publicado por Benfica 73 às 01:23

Março 17 2011

Domingos Paciência foi o primeiro a lamentar que o Sporting de Braga não atuasse sempre com a motivação que o Benfica lhe desperta. Os jogadores enaltecerem o feito de terem interrompido a longa série de triunfos do adversário, com o decisivo Mossoró a confessar ter explodido de raiva. Jorge Jesus já tinha, aliás, previsto que os minhotos iam entrar para o “jogo da época” e não se enganou. O Benfica está para a Liga portuguesa como o farol de Finisterra para a frota do bacalhau. Aponta o caminho e dá ânimo ao mais desorientado dos timoneiros, servindo de referência para o bem e para o mal a todo o tipo de navios – almirantes, mercantes ou simplesmente recreativos – com um enorme altruísmo, traduzido no velho aforismo publicitário: “e eu a vê-los passar”.

Uma das curiosidades que sobra desta jornada para a seguinte consiste em avaliar o rendimento do próximo jogo dos bracarenses. Braga e Guimarães foram até agora as únicas equipas que conseguiram vencer na jornada a seguir a defrontarem o Benfica – sendo que a maioria realizou exibições confrangedoras (com derrotas), acusando sobremaneira a “concentração” na partida mais importante da época. Neste mesmo fim-de-semana, depois de uma resistência titânica no Estádio da Luz, o Marítimo perdeu em casa e, segundo o seu treinador, esteve “apático e amorfo”.

Numa breve consulta aos últimos sete anos, em que o Benfica ganhou dois campeonatos e o FC Porto quatro, verifica-se que os adversários dos portistas perdem muito menos vezes (mais de 25% de diferença) na jornada seguinte. Por um lado, não sofrerão tanto desgaste físico, por outro, os resultados frente aos dragões, esmagadoramente traduzidos em derrotas, não lhes afetarão tanto a psique. Talvez, defrontar o Porto não seja tão motivador, não justifique tanto empenho, não garanta tanto retorno.

Ora, neste contexto condicionado pela grandeza da instituição soa sempre mal e incompreensível o discurso vitimizado que os responsáveis encarnados deste século assumem, invariavelmente, a cada revés de monta. Perder um campeonato por causa do descontrolo de fatores subterrâneos, num ano em que foram tantos os erros técnicos e de estratégia desportiva, contradiz o estatuto do emblema e remete-nos, por exemplo, para os equívocos de comunicação de José Mourinho, ao manter noutro clube-farol como o Real Madrid o discurso que se habituou a utilizar em emblemas de segunda linha.

Adenúncia de conspirações obscuras prima pela incoerência, reduz o farol altaneiro a um farolim envergonhado, quando se sabe que o Benfica esteve na primeira linha de validação, entusiástica mesmo, da atual liderança da Liga, saída diretamente da Torre do Dragão e focada na retoma de uma hegemonia sistémica, apagando com elegância os efeitos negativos de uma condenação histórica. Foi o Benfica que validou este “statu quo” traduzível num novo ciclo de vitórias do adversário nos próximos campeonatos, sempre pelos mesmos processos, repetidos sem surpresa nem decoro desde que a Liga assumiu a organização da prova, tendo Pinto da Costa como presidente e Manuel Damásio como pajem.

Autor: JOÃO QUERIDO MANHA
Fonte: Record
publicado por Benfica 73 às 00:48

Março 06 2011

Há coisas que nunca mudam. Apesar de as investidas de Jorge Jesus serem feitas às claras, filmadas de todos os ângulos e passíveis de censura pública imediata (e mediática), para não dizer prévia, há quem as veja envoltas em penumbra e só seja capaz de as situar dentro de um túnel recôndito e misterioso. Felizmente os desmandos do treinador do Benfica, a rebentar emocionalmente com a pressão que a grandeza do clube sobre ele exerce, são realizados no centro do relvado, frente ao esquema de realização televisiva com mais câmaras, impossível de esconder, retocar ou envolver em trevas jurídicas. Jorge Jesus mostra-se genuíno e frontal, para espanto de quem aprecia versões obtusas e desenvolveu técnicas de legitimação legalista para a mais tosca súcia futebolística.

No final de um jogo de enorme importância, o presidente do FC Porto atirou para o túnel dos testemunhos gratuitos uma atoarda típica, não resistindo a morder o pescoço dos seus heróis, retirando dimensão e efeito a um triunfo de implicações positivas com a tentativa de abertura de mais uma frentezinha de guerrilha. A alegação de “incentivos” indirectos aos adversários pontuais do FC Porto é apenas mais uma da longa série de acusações gratuitas e graves que a Liga, dirigida por um velho correligionário, ignorará olimpicamente, incapaz de tomar a defesa certa num confronto entre os interesses particulares e o bem comum. Como consequência, mais uma vez a excelente exibição e convincente triunfo começaram por diluir-se na espuma das ondinhas de Olhão e acabaram submersas pela vaga de fundo que devolveu o Estádio da Luz ao epicentro das emoções desportivas do país – somando já 20% mais de espectadores do que o rival.

As erupções de adrenalina de Jorge Jesus no final dos seus despiques com os amigos da Madeira são passíveis de corretivo e não se entende que demorem tanto tempo a ser julgadas como as patifarias acobertadas por minas de lona ou possam acabar impunes como qualquer arranjinho secreto apenas audível no YouTube. Os empurrões, estaladas e fanfarronices do treinador encarnado surgem aos holofotes como rabos e orelhas cortadas depois de emotivas batalhas no redondel da bola – e repetem-se numa sugestão de incentivos premeditados de quem quer manter em segregação, já para o jogo seguinte, a adrenalina do 3.º Anel.

Jorge Jesus joga com as emoções de um clube em êxtase, não obstante ter virtualmente falhado, cedo de mais, o objetivo principal. Não há memória de tanto entusiasmo em torno de uma equipa não campeã – e ninguém conseguirá espoletar um incentivo mais eficaz do que estádios cheios e retumbantes retornos mediáticos. E assim, mais uma vez, é também com a transparência dos atos e da regulação que os órgãos disciplinares da Liga se confrontam neste novo fenómeno das explosões de mau génio do treinador do Benfica. As irregularidades são claras e os acórdãos têm obrigação de também o ser, quando se esgotarem os prazos adequados de investigação e de julgamento. Do mesmo se pudessem orgulhar todos os que são apanhados a pisar o risco e a falar de mais nos bas-fonds da bola.

Autor: JOÃO QUERIDO MANHA
Fonte: Record
publicado por Benfica 73 às 00:37

Fevereiro 27 2011

Depois de uns meses à procura do norte, Jorge Jesus voltou a adotar nas últimas semanas e ontem à noite, em especial, um discurso algo sobranceiro para os adversários, que se admite pela digestão fácil de uma série longa de triunfos, mas que contrasta flagrantemente com a humildade que conseguiu impor no seio da equipa. O Benfica venceu em Alvalade porque teve força mental e física para arregaçar mangas e lutar pelo resultado, superando todos os elementos adversos, a começar por um longo período em inferioridade numérica. Foi o triunfo do Benfica humilde e lutador de Jorge Jesus, embora na cabeça de Soares Dias também se tenha chegado a confundir com o Benfica “caceteiro” de outros tempos desta época.

No seu português simples e de balneário, Jesus usou, quiçá involuntariamente, uma imagem eloquente para definir a sua equipa. “Nico e Toto”, diz ele com carinho, têm formado a dupla de jogadores decisivos e de grande influência e classe neste ciclo de vitórias consecutivas, somando golos e assistências em número já superior ao que tinha projetado para os grandes negócios do ano passado os antecessores, Di María e Ramires. Pois Nico e Toto, assim, sem apelidos, são também a imagem de modéstia plasmada na capacidade coletiva de sofrer em momentos de adversidade, como o vivido ontem perante a sanha executória do árbitro portuense no primeiro tempo, com um cartão a cada duas faltas. Nico e Toto não passavam de vértices laterais de um conjunto homogéneo e harmonioso, entregues à luta com humildade, mentalmente preparados para passarem por mais um jogo com a mesma evidência discreta dos restantes companheiros.

Enem nos momentos em que emergiram, acima de todos, para assinarem o triunfo, Gaitán e Salvio deixaram de ser Nico e Toto, vistos de fora o n.º 20 e o n.º 8, entidades anónimas num conjunto de individualidades bastante acima da média. Embora o Benfica já não tenha probabilidades razoáveis de chegar ao título, o trabalho realizado em contrarrelógio nos últimos meses por Jorge Jesus, transformando o que chegou a parecer uma trupe de nicos, totós e ranhetas, sem rei nem roque, numa grande equipa de futebol, liderada por Gaitán e Salvio, justifica a intranquilidade que se projeta do quadrante portista desde a passagem do ano.

Os próximos confrontos com o líder da Liga ameaçam tirar brilho à anunciada conquista de André Villas-Boas, quando a autoestima elevada de Jorge Jesus colocar à frente das discussões pontuais a qualidade das notas artísticas dos seus rapazes. E estaremos, então, perante mais um confronto clássico da comunicação nacional, tal como oportunamente denunciado por Vítor Baía: a palidez da marca do FC Porto, apesar dos jogadores hipervalorizados e de méritos incomparáveis, frente à projeção do despojo de figuras saídas do desconhecimento, vestidas de vermelho com o país aos seus pés.

Jorge Jesus, tantas vezes desfrutado por uma alegada deficiência de comunicação, continua a justificar estudo dos gurus do marketing desportivo, contrariando todos os clichés e compêndios. Do nada, criou “Nico e Toto”, uma nova marca para valer milhões – e não apenas dentro das quatro linhas.

Autor: JOÃO QUERIDO MANHA
Fonte: Record
publicado por Benfica 73 às 00:14

Fevereiro 11 2011

Muitos sectores da sociedade começam a soçobrar ao mediatismo que tomou conta das relações humanas. A Internet e os meios digitais, a troca da ética pela sobrevivência a qualquer preço e os 15 minutos de fama dominam estratégias e atos, degenerando, não raro, em pesadelo. Quanto maior é a notoriedade, mais perto se anda do precipício.

O Benfica é um caso paradigmático desta bipolaridade. Vive para o sucesso, aumenta a notoriedade em todas as ações, mas gera anticorpos na direta proporção e está sempre debaixo de fogo. Os adversários enfrentam-no com a adrenalina a tope, os adeptos contrários cultivam-lhe ódio de estimação e toda e qualquer conquista desportiva sempre dá origem a manifestações de descrédito e contestação – as quais nos últimos tempos vêm degenerando em violência com regularidade infame.

Cenas de pugilato, vidros partidos, cargas policiais, processos, castigos, controvérsia, baixaria – o Benfica surge invariavelmente no epicentro das páginas mais negras de uma comunicação social que, fazendo o que lhe compete, acaba por subverter o preconceito de igualdade de tratamento, em número de páginas, em panóplia de câmaras, em horas de telediscussão – condenando o Benfica à inevitabilidade de comer e calar.

Uma coisa são as estaladas de Jesus no centro do relvado da Luz em direto, outra completamente diferente uma queixa por alegada brutalidade policial contra mulheres e crianças, sem documentação visual. Mas em ambas o Benfica é surpreendido, mas responsável por negligência.

Nos episódios em que os benfiquistas encarnam vilões, sobram testemunhos e o julgamento torna-se fácil, por vezes com contornos conspirativos, pois há sempre um ângulo que lhes compromete a boa-fé. Nos alegados incidentes em que tenta assumir a vitimização, a prova é sempre ténue ou inexistente, somando-se as queixas contra apedrejadores desconhecidos a colocar sistematicamente a imagem do clube numa posição quixotesca, ingénua e incoerente.

Lembrando as mais recentes: denúncia do Apito Dourado, apoio a um dirigente do FC Porto para liderar a Liga, boicote aos estádios adversários, luta pela credibilização do jogo, declaração do secretário de Estado “personna non grata”, apoio a Gilberto Madaíl, apoio a Carlos Queiroz, proteção especial para deslocações ao Porto, denúncia de brutalidade policial, apoio a claques com cadastro e não legalizadas. Um ziguezague permanente e estonteante!

Aprincipal marca de matriz portuguesa gere-se mal, tem dificuldade em antecipar problemas e deixa escapar o controlo das situações, conseguindo deixar-se surpreender pela estratégia dos opositores, normalmente muito básica. As consequências violentas do radicalismo das emoções fermentam há muitos anos: o clube, a sigla SLB, os símbolos e, de uma forma mais genérica, os sulistas são insultados e até alvos de cantorias xenófobas e racistas (“mouros” é o mínimo) por algumas claques proeminentes – esteja ou não o Benfica a atuar nesses recintos. É, pois, um enigma a razão de nunca ter feito a respetiva denúncia na sede própria, o Conselho Nacional Contra a Violência no Desporto.

Autor: João Querido Manha
Fonte: Record
publicado por Benfica 73 às 00:45

Janeiro 06 2011

Até o grande José Mourinho, enquanto se atrasava nos Natais nevados de Nova Iorque, opinou negativamente sobre a paragem do futebol nacional no fim do ano. É assunto recorrente, não obstante a criação da Taça da Liga, ao jeito de algumas alvitrarias encartadas que gostam de assacar culpas a cartórios de costas largas, em particular ao invertebrado e inimputável movimento associativo.

Passaram cinco anos sobre a redução da 1.ª Liga a 16 clubes, talvez mais do que a economia desportiva nacional comportaria de forma equilibrada e racional, mas nenhum estudo credível desacredita a opção tomada ou aponta de forma definitiva uma melhor solução. Mas nesta altura sempre aparecem saudosistas de uns joguinhos à portuguesa, enquanto seguem deleitados, no quentinho da lareira, horas e horas de futebol intenso, taticamente desastrado, mas plasticamente inimitável, via “tvbox”, o mais aproximado que se pode arranjar, no meio desta crise, das alegrias de um “boxing day” inglês, com baixo custo e alta comodidade.

Airrazoabilidade do futebol português de Natal não é apenas cultural, mas sobretudo económica. Os clubes suportam um problema de tesouraria por um mês inteiro sem atividade, mas evitam com este blackout o prejuízo de terem de montar espetáculos deficitários. As andanças tradicionais das famílias e a falta de motivação para uma atividade que obrigaria milhares a alterarem rotinas seculares são justificações mais que suficientes. Todos os sectores agradecem a paragem, incluindo a comunicação social, que reduz substancialmente a produção, interrompe publicações e serve “enlatados”, com a consciência de que haverá menos venda de jornais e menos audiência para as televisões.

Apresunção de que o país estaria disponível para intensas jornadas ao longo da última semana do ano, como em Inglaterra, reduz-se ao espetro dos clubes grandes e ignora os custos incomportáveis para os outros. Este ano, a Liga experimentou organizar uma jornada da 2.ª Divisão na semana do Natal e conseguiu juntar 7.544 espectadores em oito partidas, menos de mil pessoas em média, apesar de os portugueses “gostarem muito de futebol”.

Em contraste, por estes mesmos dias, foi possível assistir a eventos de multidões nos Estados Unidos, como as fases finais dos campeonatos profissionais e universitários de futebol americano, sobressaindo o chamado “Winter Classic” de hóquei sobre o gelo, que nos dias de Ano Novo leva esta modalidade de volta às suas raízes de ar livre, ou seja, um grande estádio: este ano, foi em Pittsburgh, com 65 mil espectadores no Heinz Field e as maiores audiências da noite televisiva. Imagine-se o absurdo de transpor esta ideia de marketing a um país sem cultura desportiva como o nosso.

Um quadro desportivo de padrões modernos em Portugal vai demorar pelo menos duas ou três gerações a esboçar e meio século a concretizar. Depende da educação desportiva dos portugueses que estão para nascer e de reformas sociais que dependam menos de economistas e de advogados – uma absoluta utopia, embora não mais do que outra construção que é preciso iniciar pelos alicerces e não pelo telhado.

Autor: JOÃO QUERIDO MANHA
Fonte: Record
publicado por Benfica 73 às 01:06

Dezembro 29 2010

As vozes autorizadas do FC Porto infletiram, de modo surpreendente, as manifestações de confiança na aparente infalibilidade do treinador Villas-Boas, sentindo-se um inexplicável nervosismo na contagem dos pontos de avanço que a equipa tem de vantagem a meio do campeonato.

 O técnico foi o primeiro a enfatizar o iminente perigo sediado na Luz, depois de alguma generosidade de tratamento “social” para o homólogo Jesus, em seguida a tê-lo destratado sobre a relva do Dragão. Mais tarde, vieram as pantominices do presidente portista para o treinador encarnado. E os adeptos tidos como mais inteligentes consideraram que tanta reverência a um adversário moribundo expressava uma vigilância reforçada a uma ameaça perigosíssima: não o pobre Benfica, mas a própria equipa do FC Porto.

Por um lado, as desconfianças das elites portistas de um iminente esgotamento da poção mágica do novo druida do Olival não têm fundamento em qualquer desvio, sintoma ou fragilidade do trabalho visível do prometedor treinador. Por outro, não é um ou outro resultado mais expressivo do Benfica que aproxima a atual equipa de Jesus da sua base campeoníssima de há meses.

Não existindo também motivos para temer a influência devastadora do Benfica fora das quatro linhas, a que deveria o título das botas de Hélio Santos e o título do túnel do Hulk, podia ser difícil de entender esta desconfiança obsessiva. Mas apenas por quem não acompanhe as décadas de sucesso do emblema nortenho.

O lema para este ano, lançado pelo intrépido Villas-Boas, foi o “grito de revolta” que o aculturado Jesualdo Ferreira terá deixado abafar pelo seu estilo de homem normal. A lógica portista, no centro da qual o jovem treinador nasceu e cresceu, sempre foi a de uma motivação belicosa, um antagonismo feio, uma revolução contra os costumes opressores. Nas trincheiras e com baionetas na ponta das botas, os exércitos azuis e brancos avançam, com mandato divino, em campos de batalha ocupados por ímpios centralistas. Tudo o que acontece no Benfica, incluindo no “bàs-fond” do famoso túnel da Luz, bate fundo no quartel-general portista, o que apenas se compreende pela dimensão do clube lisboeta.

Mas, com 8 pontos de vantagem e acabado de libertar-se juridicamente do mais terrível das cominações, o FC Porto perde assim mais uma oportunidade excelente de redenção e credibilização. Quando podia exaltar as proezas e os atributos e atrair as atenções gerais com uma manobra de charme nacional, baseada numa superioridade inatacável em todas as competições, os estrategos portistas deixam-se resvalar para o lado odiento dos velhos tiques provincianos, continuando a posicionar o emblema como um satélite azul e branco na órbita da grande estrela benfiquista. O que podia ser um grande sistema solar, em torno do brilho das suas estrelas, continua a centrar-se apenas no que pode ou não pode fazer o adversário principal, alimentando até a crença encarnada.

Foi deste desfoque recorrente, quiçá genético, que se queixou há tempos Vítor Baía, cansado de ver os méritos do FC Porto reduzidos, originalmente pelo próprio clube, a deméritos do Benfica.

Autor: JOÃO QUERIDO MANHA
Fonte: Record
publicado por Benfica 73 às 02:36

Dezembro 22 2010

O ano está quase pronto a dar entrada nos arquivos como o do regresso do Benfica à linha do sucesso, com toda a pompa, mas são legítimas as dúvidas sobre a circunstância e inúmeros os que observam o trajeto da equipa de Jorge Jesus como um fenómeno conjuntural, bastante facilitado pela fragilidade psicológica dos protagonistas envolvidos nos julgamentos, judiciais, desportivos e populares, do processo conhecido pelo absurdo nome de "Apito Dourado".

Openálti que abriu caminho ao triunfo da União de Leiria na Figueira da Foz é um daqueles lances emblemáticos, a levantar a ponta do véu. As equipas de Bartolomeu e Pinto da Costa somam 12 penáltis em 14 jornadas, ou seja, um terço (33%) do total da 1.ª Liga. Um "must"!

Assistimos a um regresso às origens, com o grupo dos figurões a voltar pelos "bons" motivos à primeira linha das notícias, faltando apenas no ramalhete o abandonado "compagnon de route" do Boavista. Os sinais de impunidade que os arquivamentos sucessivos foram passando, ao mesmo tempo que a Liga se reposicionava internamente, elegendo para líder uma figura "acima de toda a suspeita", foram chancelados em particular pelo Benfica, inebriado pelos vapores do sucesso, sem dar conta de quão efémero ele era.

Dentro das quatro linhas, viveu-se o paralelismo simbólico dessa grande operação de retoma, com a reorganização desportiva do FC Porto, em contraste com o relaxamento e descuido dos recentes campeões. A entrada firme na nova época foi fundamental e remeteu para um procedimento clássico e comum na maioria dos títulos dos últimos 30 anos, assegurados normalmente nas primeiras dez jornadas com intervenções cirúrgicas nos próprios jogos e nos dos adversários.

Afinal 2010 não será o ano da águia e pode vir a ser visto mais tarde como um insignificante incidente do longo percurso dessa força descomunal que o líder natural descrevia ontem de modo muito honesto: "depois, a jornada acaba sempre com uma vitória nossa".

Aestabilidade de todo este processo, incluindo os intervalos para recarga de energias após o esgotamento dos treinadores que não conseguem sobreviver a mais de dois anos de sucesso, é garantida pela fragilidade psicológica e operacional dos adversários, com o Sporting, enfeitiçado primeiro e desvitalizado depois por uma associação perversa com um adversário que lhe era inferior, e com o Benfica, sempre inebriado com a grandeza e as glórias do passado.

Os últimos três meses foram horríveis para o Benfica, descendo das nuvens em círculos estonteantes, como uma águia Vitória a baixar do 3.º Anel, voo sobre voo, até à aterragem final. Todos os altos voos caíram por terra: a regeneração desportiva, o controlo da vontade dos adeptos, a Liga dos Campeões, a liderança dos clubes "bons", a luta absurda com a tutela governamental e, provavelmente, a revolução da discussão dos direitos televisivos. Depois de um quadro favorável que lhe permitia sentar-se no lugar do condutor, o Benfica constata em poucos meses que não consegue catalisar vontades e que eventuais apoios externos vacilam perante a notória retomada dos poderes instituídos. 2010 não terá então passado de um período sabático do líder natural.

Autor: JOÃO QUERIDO MANHA
Fonte: Record
publicado por Benfica 73 às 07:42

Dezembro 08 2010

Nos últimos tempos, têm sido vistos à beira dos relvados uns promitentes treinadores, desfolhando umas sebentas à vista dos jogadores suplentes prontos a entrar em campo. O futebol chegou a um ponto de erudição intelectual que nenhum jogador parece capaz de ter atuado no tempo de Pedroto ou Otto Glória e perceber, do treino que fez durante a semana e do conhecimento da equipa e dos companheiros, o significado de um seco e grosso “vai lá e faz o que sabes!”

Os jogadores modernos, grandes profissionais que se fazem acompanhar de computador portátil e adoram ser submetidos a intermináveis prédicas em “power point”, ficam perdidos quando chamados a entrar em jogo se alguém não lhes reavivar a parafernália de jogadas desenhadas pela equipa técnica nas suas longas sessões de futebol virtual, repassando-lhe o dossier dos “prints” ou as páginas virtuais numa tablete eletrónica com ecrã tátil.

E, assim, naquele pequeno minuto que antecede a substituição, quando deviam estar focados na benzedura e em não tropeçar no pé da entrada, perturba-se aqueles momentos fugazes com uma última revisão da matéria, não estivesse o craque bem ciente da tarefa, ou não tivesse realizado suficiente trabalho de preparação durante a semana. A jogada 23, depois a 27, também a 31 – tudo fresco e lógico na cabeça de um atleta que vai correr meia dúzia de minutos e que antes só acalentava a esperança de chegar, ao menos, a tocar a bola.

Caiu em desuso, pelo efeito perverso que tem sobre as rotinas coletivas, o conceito simplista de trocar o defesa pelo avançado, ou vice-versa, como resposta empírica à evolução do jogo. Sim, com tanto curso e diploma, essa simplicidade seria atentatória da boa imagem de um treinador moderno: se é para perder, que se perca com estilo.

Aos treinadores num mercado ultracompetitivo exige-se uma imagem de competência, resultados desportivos imediatos e um discurso reverente e resignado. Porém, a maior parte nunca consegue ganhar o suficiente no nível de maior exigência, nem ter suficientes oportunidades de se afirmar pelo discurso inteligente, pelo que o exibicionismo de aptidões tecnológicas funciona como tentativa de diferenciação, algo desesperada. Faz sentido, finalmente, aquela conversa do precursor desta nova vaga que introduziu o conceito de “mudar o chip” à equipa – que até recentemente eu, erradamente, pensava não passar de rebuscada figura de estilo.

Otreinador de futebol com mais e melhor formação técnica, académica até, do que nunca, sente-se cada vez mais ameaçado e instável e tenta reagir com uma imagem de erudição técnica e “show off”, fingindo que não deixa escapar nenhum pormenor, porque aceita que o jogo se ganha nos detalhes e não na categoria e no trabalho das equipas.

Oconceito de “general manager” está a incorporar a classe, conduzindo-a para um mundo artificial, que não deixa responder a perguntas não encomendadas previamente, nem dar ordens que não estejam no livro tático autorizado. E com isso vem a subalternização do virtuosismo e a degradação da espetacularidade: trocam-se os automatismos dos anos 90 pelos autómatos do futuro.

Autor: JOÃO QUERIDO MANHA

Fonte: Record

publicado por Benfica 73 às 11:00

Novembro 24 2010

Apenas 30.588 adeptos, alguns dos quais espanhóis, foram à Luz ver jogar os campeões do Mundo, transmitindo a imagem acabada de um país à beira do colapso, sem dinheiro, sem alegria, sem motivação. Em tempo de crise, ninguém seria tão optimista que pudesse prever uma goleada sobre tão poderoso adversário, mas pressentia-se a vontade de aproveitar tão ilustre visita para prosseguir a escaldam psicológica que retirasse o país futebolístico das trevas onde o iluminado ex-seleccionador a afundara nos últimos dois anos.

Só que 30.588 representam pouco mais de metade da média de espectadores da selecção no novo estádio da Luz e reflectem o que o futebol significa, para os portugueses, neste momento.

Com as imagens das cadeiras vazias em fundo aos golos de Carlos Martins, Hélder Postiga e Hugo Almeida a correrem mundo, algumas vozes se insurgiram contra a má «promoção» que a Federação terá feito deste cartaz de luxo, como se a visita da Espanha precisasse de mais divulgação num país que goste verdadeiramente de futebol.

Não há que temer, porém que tal imagem venha a exercer qualquer influência na decisão sobre a sede do Mundial de 2018, uma vez que os indicadores decisivos são outros, mais prosaicos, em que o país escolhido não passa de uma barriga de aluguer, de baixo custo. A FIFA sabe muito bem que, se precisasse dos portugueses para encher estádios, Portugal seria o último país da Europa: hoje, no Braga - Arsenal, jogo histórico e quiçá irrepetível, haverá mais cadeiras vazias do que ocupadas.

É no plano interno que se chegou ao limite do artificialismo e não se pode camuflar mais: o futebol está à beira da implosão.

O Beira-Mar negociou uma moratória com os credores para não fechar portas antes de receber o Benfica, confiando na desobediência clubista dos adeptos do clube de luís Filipe Vieira para realizar uma receita que lhe permita continuar de portas abertas mais uns meses.

Por falta de interesse público, a Olivedesportos falhou a venda dos direitos da edição da Taça de Portugal às televisões, nem lhe valendo desta vez a habitual solicitude do canal público a inflacionar os valores de mercado, à custa dos contribuintes.

Com o Benfica arredado da final desde 2005, a Taça de Portugal vem definhando ano após ano e é agora uma prova desinteressante e distante dos adeptos, desrespeitada pelos treinadores e sem padrões de exigência técnica ou de espectacularidade reduzindo-se às duas últimas eliminatórias ou a um ou outro jogo grande, acidental no percurso. No último fim-de-semana, os espectadores de todas as partidas dos dezasseis avos de final teriam cabido no Pavilhão Atlântico, a ver a Shakira.

Ora, é neste cenário de crise evidente, reclamando intervenções de choque, que se assiste à indiferença governamental perante o regabofe jurídico em que a Federação está mergulhada, elegendo órgãos fantoches à boa maneira dos regimes de antanho e brincando aos Mundiais, ao mesmo tempo que ridiculariza as leis da República e a bandeira.

E, no entanto, no próximo dia 2, em Zurique, lá estarão, lado a lado, em nome dos portugueses que «tanto gostam de futebol» e, como eles gostam de dizer, do «interesse nacional», dirigentes federativos e membros do Governo em mais uma demonstração de hipocrisia e falta de sentido de estado que nos envergonha a todos.

Autor: João Querido Manha

Fonte: Record

publicado por Benfica 73 às 00:07

Novembro 16 2010

Portugal é um dos principais destinos mundiais de golfe, com alguns dos melhores campos da Europa, o clima mais invejável e a segurança mais apurada. A segurança quê? No golfe propriamente dito, não há registos de problemas, violência ou vandalismo. Nos clubes só entram pessoas normais e o uso das bolas é estritamente desportivo, exceto um ou outro acidente por negligência da etiqueta. Em reconhecimento do perigo, de vida até, desde sempre se instituiu que os jogadores fiquem atrás da linha da bola.

Apesar das extraordinárias condições, Portugal ainda não conseguiu gerar um jogador de classe mundial, numa manifesta demonstração de incompetência diretiva, técnica e estratégica, sem esquecer que enorme parte dos federados são estrangeiros, residentes ou passantes. Por isso, o país que se candidatou a organizar a Ryder Cup de 2018, a maior manifestação desportiva depois dos Jogos Olímpicos e do Mundial de Futebol, é o menos competitivo da Europa ocidental, observando com inveja a explosão dos Molinari e Manassero, em Itália, o último destino na cabeça de qualquer golfista que se preze. À boa maneira lusitana, lidamos neste campo com um desperdício de meios, talento e credibilidade.

Os portugueses que por estes dias ouvem falar de golfe, logo associam o mais nobre dos desportos a hordas de desnorteados e a atos do vandalismo mais gratuito e desumano. Correm notícias inverosímeis de que algumas lojas perto de estádios de futebol esgotam os stocks de bolas de golfe, pois a maioria dos balázios utilizados pelas claques são roubados de campos de prática, mas elucidativas de delinquência deliberada e fora de controlo das autoridades.

É, aliás, bem irónico que no mesmo fim-de-semana em que era difundida essa informação do sucesso comercial das bolinhas como munições de guerra, tivesse sido cancelada em Lisboa a feira anual do golfe, por indisfarçável crise no sector.

Afalta de poder e de disciplina no futebol português, que disfarça com castiguinhos fantoches a escandalosa impunidade das práticas criminosas e xenófobas que vêm minando o jogo por dentro, abriram caminho a esta perversão. O que podia ser o paraíso do golfe, à escala mundial, está em vias de se tornar num inferno, de dimensão paroquial, com esta guerra imbecil entre chusmas de marginais, abrigados por emblemas e bandeiras que mereciam mais respeito.

Dezenas de milhares de portugueses deixaram de ir ao futebol nos últimos 30 anos e tanta energia desperdiçada podia ser resgatada por outros desportos. O futebol embrutece, o golfe educa. O futebol divide, o golfe congrega. O futebol ameaça a sociedade, o golfe socializa como nenhum outro desporto.

Alei prevê a apresentação dos vândalos nas esquadras da polícia à hora das partidas, mas seria bem mais proveitoso trocar esse castigo pelo prazer do corte de relva de uns quilómetros de fairways e alisamento de bunkers. E, claro, acompanhados pelos dirigentes de clubes para quem vale tudo, incluindo ser cúmplices e instigadores dos “shots” que estão a assassinar o futebol.

Autor: JOÃO QUERIDO MANHA
publicado por Benfica 73 às 22:48

Novembro 10 2010

O que fazer com esta catástrofe? – eis a questão que os benfiquistas podem colocar no fim da primeira semana de Novembro, a sete meses do final da época, a 10 pontos do líder e virtual campeão.

No fundo de um poço, como uma equipa de mineiros abandonados por uma estrutura que não preparou bem as condições para melhor desenvolverem o seu trabalho, os jogadores encarnados enfrentam uma longa espera, agonizante e depressiva, até poderem encadear-se outra vez com a Luz de uma vida normal, pelo menos na imaginação e nas referências, de um clube que ganha ou discute as vitórias até ao último momento.

Há meia dúzia de meses, tudo parecia ouro puro nos domínios do Benfica, o treinador tinha o toque de Midas, os dirigentes ostentavam sobranceria e arrogância com o quilate dos indiscutíveis, como se nada pudesse correr mal e não houvesse necessidade de continuar a garimpar fundo. O sucesso escorria à flor da relva, plasmado em cláusulas áureas e contratos fulgentes.

Era, afinal, a recorrente ilusão da quimera do ouro que persegue os prospectores do êxito. No filme de Chaplin, o desespero da fome fá-lo transformar a bota e os atacadores em bife com esparguete. Na visão de Jesus, são os defesas-centrais que se transformam em laterais, os laterais em médios, os médios em avançados, o sistema em caos. O treinador do Benfica amanhou uma salada a sonhar que servia um prato “gourmet”.

E é assim que, a sete meses do fim da época, se descobrem os jogadores do Benfica metidos num enorme buraco com todas as suas honras e vergonhas. Toneladas de dúvidas por cima das cabeças, dez pontos abaixo do nível, com tendência para cair ainda mais, e apenas muito tempo e algum espaço para correr, melhorar o físico, exercitar o espírito, reforçar os laços afectivos e esperar, pacientemente, que os, até agora, negligentes responsáveis lhes cavem o túnel – por favor, nada de más interpretações – por onde possam emergir, de regresso à vida, ao sucesso, às boas atenções dos media, às homenagens da família benfiquista desesperada e à admiração do Mundo.

Um cataclismo deixou os jogadores do Benfica no fundo da mina escura onde perdeu o tesouro do campeão e as interrogações são óbvias. Estarão eles preparados para uma situação tão inesperada e grave? Terão paciência e espírito de corpo para não se desagregarem irremediavelmente através de fugas individuais que agravariam esta crise para proporções dramáticas? Disporão de um plano de emergência que os ajude a escaparem das profundezas ao mesmo tempo que, de cima para baixo, os responsáveis lhes reenviam a cápsula da glória? E, depois de falharem rotundamente na gestão do sucesso, terão estes mesmos responsáveis talento, discernimento e competência para montar uma operação de salvamento que não provoque mais danos colaterais?

Porque tudo depende de uma liderança firme e serena e da confiança que as vítimas tenham nos salvadores, as perspectivas são pouco animadoras. Foi o pânico do treinador e o descontrolo da equipa que fizeram desabar o novo filão da alameda das Antas em cima dos mineiros da Luz.

Autor: JOÃO QUERIDO MANHA
Fonte: Record
publicado por Benfica 73 às 00:56

Outubro 19 2010

Quando o Benfica apareceu na primeira linha dos apoiantes do novo presidente da Liga, um ex-vice-presidente fundamental nos anos de sucesso desportivo e crescimento social do FC Porto, houve duas leituras díspares e grande perplexidade pela incoerência. Uns consideraram, com estupefação, um erro estratégico histórico, por tornar a águia refém para sempre do dragão predador. Outros acharam, em surdina, que a confiança inerente à conquista do título permitia ao Benfica arvorar-se em fautor da reconciliação nacional.

Todavia, como se depreende da algazarra profissional que anima as televisões a que o insuspeito Artur Agostinho chamou de “pirómanos” – ontem, neste espaço, cometendo um crime pela jurisprudência dos tribunais cíveis do Porto –, a bipolarização nunca esteve tão acesa. Tão perigosamente acesa.

De um lado, resguardando de confrontos menores o presidente peso-pesado, na linha do que já acontecera com o técnico dos anos apertados do Apito Dourado, é um treinador de cartão e cachecol que aguenta o primeiro embate, criando lastro para a entrada em cena, em momento mais oportuno, do último chefe do atual presidente da Liga e declarado inimigo dos “caceteiros”. Do outro, é a própria nomenclatura a envolver-se, com generais e almirantes precipitados em cavaqueiras de sargentos e praças, exteriorizando má avaliação da frente de batalha.

Ocaso do boicote aos jogos fora de casa é paradigmático. Nunca uma diretiva terá sido recebida pelos adeptos com tanto desdém como esta absurda intenção de pressionar outros clubes a desalinharem-se do pretenso “pacto” com o “atual estado do futebol português”, castigando-os onde mais dói.

Sem ter tido o cuidado de identificar claramente que pretendia isolar o FC Porto, enquanto espécie de “eixo do Mal”, e sem ter contado espingardas antes de tomar uma decisão impopular, o Benfica veio depois aumentar a confusão requisitando milhares de bilhetes para o clássico do Dragão, com a alegação de com isso apenas querer dar uma resposta à letra ao porta-voz designado, o perigosíssimo André Villas-Boas.

Atrapalhados pela inesperada derrapagem da equipa de futebol, única face benfiquista que recentemente, por escassas semanas, respirou os ares do poder, os gabinetes de estratégia e de comunicação da Luz e seus assessores externos sofreram uma crise de ideias e arriscam despertar a animosidade dos clubes pequenos, que nada têm a ver com esta guerra, a começar pelo Portimonense, e terminarem como na fábula do caçador caçado.

Ao menos, o silêncio perturbador do atual presidente da Liga, em linha com o de Pinto da Costa, relativamente à escalada de violência verbal e à iminência de uma guerra urbana, ajudará o Benfica a subentender o posicionamento, sem ambiguidades, do FC Porto e seus aliados quanto à candidatura de um benfiquista à presidência seja do que for. Contra!

Pretendendo ser visto e seguido como um líder esclarecido, fiável e aglutinador, o Benfica segue em ziguezague sem respostas coerentes para tantas frentes de combate, à medida que se aproxima o momento de revalidar os contratos televisivos com os parceiros de sempre – provavelmente a próxima “desilusão” no horizonte encarnado.

Autor: JOÃO QUERIDO MANHA
publicado por Benfica 73 às 23:36

Outubro 06 2010

“Diz-me como vestes, dir-te-ei quem és.” Este velho aforismo parecia ameaçado com a globalização e com a tendência dos nossos jovens em copiar modelos mediáticos, independentemente do gosto e da lógica, mas afinal a igualização ainda consegue sublimar a diversidade. Não a que é ditada pelo poder do marketing, capaz de glorificar uns “jeans” de marca, mas de pouca qualidade, rasgados no joelho ou no rabo, debotados à pedrada e com as costuras à vista. Mas sim a que distingue inteligência, personalidade e equilíbrio, segundo a mesma lógica de discrição, bom senso e carisma, sem berrar aos olhos e ouvidos dos circunstantes.

Contudo, é muito difícil ter bom gosto num quadro de súbita abundância económica e míngua de referências educativas, que faz resvalar para o carro amarelo, a fatiota às riscas, as caracoletas na cabeça e o discurso pedante, para gáudio dos caricaturistas. A ideia de uma riqueza fátua anda de mão dada com o futebol, uma das raras actividades em que se ganha dinheiro antes de apresentar serviço, sem que as entidades empregadoras cuidem de provisionar o risco como seria de boa gestão.

As linhas norteadoras da actual SAD do Sporting, embora só esteja confirmada a proibição de uso de calças de ganga, vão de encontro a uma necessidade de afirmação que pode nortear a reconstrução de uma marca, neste caso ajustada a um clube sofrendo uma despromoção no espectro hierárquico a que ainda não conseguiu adaptar-se. O Sporting já não é o segundo clube do país, tem perdido bases, e talvez a opção mais vincada que nunca por um cariz elitista e demarcado lhe possa servir para reagrupar vontades, concentrar energias e recriar a boa imagem.

Nenhum processo é linear e, quando se trata de ajustamentos tão sensíveis como os que envolvem personalidades e egos das gentes da bola, os focos de tensão e clivagem são inevitáveis. O choque e estupor provocados pelas revelações deste jornal em relação à cartilha de Francisco Costa decorrem apenas de um ligeiro erro de cálculo: o que pareciam linhas gerais de comportamento, disciplinado e objectivo, acabou por revelar um cariz ridículo, na linha de algumas vestimentas do seu autor. Parecem-lhe distintas e padronizáveis, de acordo com um determinado estado de espírito (ou “cultura”), mas quando saltam do manequim para a carne e osso chocam-nos praticamente (em) todos os sentidos.

Para tudo é preciso habituação, como dizia o Pessoa, a respeito da Coca-Cola. Não restam dúvidas de que a continuar nesta linha, o Sporting acabará por despertar os seus adeptos para uma atitude de fato à medida, que os distinguirá de todos os demais sem envergonhar ninguém, deixando de ser necessário aos responsáveis esconderem-se atrás dos jogadores em momentos de aperto, como aconteceu no domingo.

Imagine-se que, ofendidos pelas gravações que vão aparecendo no YouTube, dirigentes, advogados e juízes associados às borlas nos jogos do FC Porto obrigavam os jogadores a saírem a terreiro a ameaçar os que lhes expuseram imagem tão asquerosa.

publicado por Benfica 73 às 01:03

Agosto 25 2010

A história de Roberto no Benfica seria difícil de imaginar como ficção e é originalmente incrível como realidade. Muitos observadores, por respeito à lógica e à experiência, mantiveram durante quase dois meses uma pressão enorme no sentido de ajudar o treinador Jorge Jesus a corrigir o erro invertendo a sua opção. O efeito, todavia, foi contrário, revelando a teimosia do treinador, com prejuízos desportivos, quer na Liga Europa da época passada quer no início da presente temporada.

Procurando retificar a reputação de mau avaliador de guarda-redes, fundado no desdém por atletas abaixo dos 1,90 metros, arriscou demais com as apostas em Júlio César, cujas carências técnicas já eram conhecidas dos tempos do Belenenses, e em Roberto, um desconhecido. Curiosamente, apesar de cumprirem os requisitos atléticos, ambos sofrem do mesmo defeito penalizador de deficiente leitura tática e descoordenação coletiva, nos lances de bola parada.

Apesar da evolução tecnológica e da imagem moderna de leitura de vídeos e estatísticas como princípios norteadores do trabalho dos treinadores de última geração, sem esquecer as "entrelinhas", as "transições" e as "basculações" que lhes adornam o discurso, é da capacidade de interpretação dos dados que advêm os bons resultados. Não adianta afogar-se em números, esquemas e powerpoints catitas, quando não se tem discernimento para privilegiar a análise em detrimento do "feeling", no momento de tomar decisões.

Ora, a catástrofe que está a alagar o terreiro do campeão estava escrita nas estatísticas dos jogos do Benfica desde o início da pré-temporada. O avolumar da coluna dos erros, muitos deles primários, na ficha de Roberto e do sector defensivo, em contraste com a quase total alvura da soma dos "pontos ganhos" e da eficácia atacante, foi fazendo crescer na equipa o sentimento apavorante de dúvida que sempre acompanha a lei de Murphy, como uma caminhada imparável no sentido do abismo. Jorge Jesus não leu os sinais de que o seu guarda-redes cometia erros e acabaria inevitavelmente por repeti-los da pior maneira, no pior momento e causando o maior estrago possível: tudo o que podia correr mal, correu.

Iniciando agora a Liga com seis pontos negativos, muito dificilmente o Benfica poderá revalidar o título, não obstante possa parecer prematura tal conclusão, a 28 jornadas do fim. Os otimistas acreditam que a partir daqui o Benfica não voltará a perder, não voltará a jogar mal, não voltará a acusar a descrença numa série de erros de gestão desportiva que lhe provocaram o pior começo de época de que há memória, mas a história diz-nos que tal é impossível de acontecer.

Um comentador da praça televisiva dizia há tempos que quem analisa com base em estatísticas não percebe nada de futebol. E Jorge Jesus está a provar deste veneno inebriante, que elege génios da bola apenas pela forma como perspetivam o jogo, com base em pressentimentos e olho clínico.

O instinto de Jorge Jesus disse-lhe que Roberto era uma solução, as estatísticas afirmavam, sem margem para dúvida, que era um problema – a intuição contra a razão. Para mal do Benfica, o treinador cedeu à emoção.

Autor: JOÃO QUERIDO MANHA

publicado por Benfica 73 às 08:50

Maio 11 2010

Alguns rumores de que Carlos Queiroz e os seus novos conselheiros de imagem procurariam a todo o transe recuperar o prestígio esbanjado nos últimos dois anos foram ontem desmentidos, na forma e no conteúdo, pela convocatória para o Mundial da África do Sul em que conseguiu agravar o cisma, não só dos adeptos do Benfica, mas juntando-lhes agora também os do Sporting. Ao som de trombetas zulus e com a identidade cultural dos "guys" dessa banda de referência lusitana chamada Black Eyed Peas, Queiroz chamou uma voz da América para anunciar a selecção dele aos outros portugueses.

Após uma campanha de qualificação medíocre e terminada a ferros, vogando numa inexplicável ascensão ao terceiro lugar do ranking mundial, Queiroz teve cinco meses para elaborar um plano e definir uma selecção unificadora, sem esquecer um plano de comunicação que atenuasse a desconfiança e despertasse o necessário apoio de mais portugueses. A ideia parece inspirada, de forma canhestra, no plano original de Scolari de começar por hostilizar o clube dominante, através de Vítor Baía, para despertar na maioria dos portugueses um suporte fervoroso à equipa nacional - o mais incondicional e alargado que algum dia ela teve.

Como qualquer um, depois de surpreendido com uma lista de 50 pré-convocados, numa manobra digna de uma Federação terceiro-mundista, tentei colocar-me na cabeça do seleccionador, mas logo percebi que seria impossível descobrir os seus jokers e entender a sua bizarra tendência para o absurdo.

Por isso, ainda alarguei o exercício com uma margem de segurança e, em vez de 23, escolhi 29, admitindo uma "tolice" por cada sector e especialidade, na esperança de uma identidade que me auxiliasse na compreensão da constituição da equipa, ao longo do mês que falta para o início do Mundial.

Mesmo assim, falhei por três, o que me inflige uma decepção arrasadora. Como é que eu, português, vou justificar as chamadas de Daniel Fernandes, Ricardo Costa ou José Castro? Que qualidade individual ou prestação técnica e táctica pode oferecer à Selecção Nacional cada um destes jogadores? Que critério conduziu à escolha deste insólito trio, reflectindo-se na exclusão de Quim, Ruben Amorim, Daniel Carriço, Carlos Martins, Nuno Assis ou Makukula?

E quem vai entender a ideia de abrir uma nova frente de combate com a exclusão de João Moutinho, completamente desajustada dos dois anos de trabalho que ficam para trás: o capitão do Sporting era um dos cinco jogadores que não tinham falhado qualquer das 12 convocatórias anteriores de Carlos Queiroz.

Com a opção deliberada por estrangeirados sem referência entre nós, o seleccionador deu sinal de não pretender, afinal, qualquer "reconciliação" nacional e aproveitou a proximidade quotidiana dos jogadores do Benfica e do Sporting para condená-los em função do cariz internacionalista que visa adequar a imagem de Portugal à das selecções de África e da América do Sul. Só lhe falta agora transferir os jogos caseiros para Londres, Paris ou Zurique.

Autor: JOÃO QUERIDO MANHA
Fonte: Jornal Record

publicado por Benfica 73 às 18:27

Maio 05 2010

Primeiro, o Inter do genialíssimo Mourinho. Depois o Porto, do geniquentíssimo Jesualdo. E, em poucos dias, com três ou quatro espertos a chancelar a coisa ao melhor nível do nacional-futebolismo correto, parece vingar a ideia de que nada há de melhor do que jogar em inferioridade numérica.

Uma rápida análise da temporada, diz-nos precisamente o contrário. Apenas em oito jogos, dos 68 que tiveram expulsões, a perda de jogadores coincidiu com algum benefício de resultado - incluindo o empate do Porto em Paços de Ferreira, a vitória do Braga em Belém, a recuperação do Marítimo também no Restelo e o triunfo do Nacional no dérbi madeirense. Por vezes acontecem exceções, mas nada supera o ter superioridade e saber usufruí-la.

A insistência de jogadores, responsáveis e dirigentes do Porto (e também do Braga) em ver o plantel do Benfica dizimado por castigos, fazendo regressar à primeira linha de combate, agora sobre Luisão, a perseguição feita a David Luiz nas semanas que precederam o "clássico Hulk", prova que todos igualmente consideram uma vantagem o "casting" total. Aliás, pensando já na próxima época, só falta encontrar o habitual cidadão de Rio Tinto atingido pelo isqueiro, para preservar por uns bons três meses da insuportável combatividade do capitão encarnado o pacífico e muito desportivo "association" nacional.

As exceções ocorrem, sobretudo, em ambientes especiais ou momentos de motivação suprema, como a que exacerbou a equipa de Jesualdo Ferreira para um triunfo redentor. E quando, do outro lado, a fortaleza mental abre brechas e deixa penetrar laivos de desconcentração - como os que perturbaram a equipa do Benfica nos momentos decisivos do jogo de domingo.

O Benfica bateu no domingo um recorde, porventura mundial, de tempo de jogo em superioridade numérica ao longo de uma temporada, chegando a 342 minutos (cinco horas e 42 minutos de jogo) com mais um (por vezes, dois) jogador em campo. O que corresponde a 13 por cento do tempo total da competição. E Fucile foi o 17.º jogador adversário a ver o cartão vermelho em partidas do líder.

A grandiosidade da época encarnada justifica estes dois recordes, arrebatados ao Porto (305 minutos na época de 2000/01) e ao Sporting (16 adversários expulsos na Liga de 2004/05). Semana a semana, o Benfica enfrentou adversários hiper-motivados, nos limites, quase descontrolados, procurando arrastá-lo para jogos de combate e nivelamentos por baixo. Quase sempre, a força mental dos lisboetas sobrou para as encomendas, mas nos dois jogos mais complexos, em Braga e nas Antas, foi insuficiente.

O trabalho que espera Jorge Jesus nesta semana e no lançamento da próxima temporada, seguramente ainda mais assanhada pelo fanatismo emblemático, a raiar o racismo, que alastra perante a indiferença da Federação e da Liga, é precisamente o de preparar uma equipa (quase) campeã a saber gerir a sua superioridade. A imagem confrangedora de adversários caindo a pique do pedestal da glória para comportamentos do mais rasteiro e miserável, servir-lhe-á de inspiração.

Autor: JOÃO QUERIDO MANHA

Fonte: Jornal Record

publicado por Benfica 73 às 10:12

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