Outubro 13 2010

Mobilizou e aproveitou, não olhando a questiúnculas que, no momento em que assumiu a sua tarefa, poderiam – se consideradas – ser a via rápida para o consumar do “défice” que herdou. Paulo Bento, que – recordo – escrevi aqui que não teria sido a minha primeira escolha para selecionador, surge, passados dois jogos, como uma escolha de primeira. Chamou os melhores, de tal forma que é complicado poderem aparecer vozes dissonantes a defender a mais-valia de alternativas. E, ao contrário de quem o antecedeu à frente da Seleção, teve, em face destes dois jogos de “salvação nacional”, o juízo de não inventar.

Resultado: tanto numa exibição mais técnica, com a Dinamarca, como num encontro em que era preciso usar o músculo e o sentido prático, com a traiçoeira Islândia, Portugal voltou a jogar com alegria e competência, com a noção do dever que está em causa mas também com a dimensão do prazer.

Ganhámos um meio-campo funcional e, em momentos criteriosamente selecionados, espetacular: se Moutinho foi insuperável com os dinamarqueses, Meireles encheu o campo com os islandeses. Em ambas as ocasiões, Carlos Martins deu provas cabais da sua utilidade. E Tiago ainda teve tempo para deixar sinal de que também está na corrida. Os laterais estão certos. Os alas têm (mais) terreno aberto depois da renúncia de Simão que, se calhar, até será recuperável. Nani (Dinamarca) e um reencontrado Cristiano Ronaldo (Finlândia a tempo inteiro, depois da segunda parte com os dinamarqueses) foram os melhores em campo. E quem tem à mão a dupla de centrais do Real Madrid, não precisa de ser um génio para perceber que pode tirar grande partido das rotinas de Ricardo Carvalho e Pepe.

Temos problemas em aberto? Claro que sim, desde logo nos extremos mais recuado (Eduardo longe do brilho da África do Sul) e adiantado (Hugo Almeida desgarrado). Mas aquilo que Paulo Bento “explicou” é, afinal, elementar: que só vale a pena abordar estas questões se o essencial – o apuramento para o Euro’2012 – ainda estiver ao alcance.

Bento chega ao pleno dispensando os misticismos e a sensação de “grupo fechado” mas, ao mesmo tempo, evita os discursos teóricos e “finta” a falta de capacidade para ler o jogo ao minuto, algo a que infelizmente nos habituámos nos últimos dois anos. Mais: a vencer tangencialmente em Reiquejavique, teve a coragem de substituir um avançado por outro. Com resultados, mas também com princípios. Para já, merece todos os aplausos e a chapelada que se reserva aos homens de mérito. Uma exibição de raça frente à Espanha e tudo se conjugará para partirmos para uma recuperação assinalável. Pela parte que me toca, estou rendido. À simplicidade, que ainda é trunfo dos que a trabalham.

Autor: João Gobern
publicado por Benfica 73 às 18:42

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