Outubro 10 2010

MAIS escutas sobre o processo Apito Dourado entram no circuito público por bênção de novas tecnologias de comunicação. Em rigor, a única novidade prende-se com os diálogos. No resto, tudo como antes, com os artistas habituais. Apenas os actores secundários se revezam, naquele papel de coitados, qual deles mais se curva no pedido de protecção no apelo aos bons desempenhos dos homens do apito. Dá a ideia de algum poder insondável, que ninguém com atribuições para tal é capaz de identificar, acusar e condenar: se uma pessoa de muitas e ricas influências, se uma organização secreta, se um sistema clandestino. Ou… se é tão-somente a fervilhante imaginação de um pequeno país, onde todos se conhecem e se invejam e em que as discussões no quintal do vizinho são o bálsamo que alivia as dores que atormentam a nossa própria casa.

Vivemos num estado de direito, como insistente e pedagogicamente ouço dizer a propósito de tudo e de nada, não vá o cidadão comum, pouco identificado com a complexidade das leis, pensar que este rectângulo na ponta ocidental da Europa se orienta ainda pelas regras do distante far west, em que no acto de julgar, apurados os factos, depois de pesadas circunstâncias agravantes e atenuantes, se absolvia o autor do disparo e se condenava a vítima pelo crime de intromissão abusiva na trajectória da bala.

Tornou-se uma inutilidade desperdiçar tempo com as escutas a partir da altura em que meia dúzia de tribunais a sério, como lhe chama Miguel Sousa Tavares, as ouviram, analisaram e decidiram: não valem nada. O problema é que quem se considera minimamente identificado com as questões do futebol português, e não tem a sua capacidade auditiva prejudicada, identifica facilmente os intervenientes e percebe, mesmo através de frases tolamente criptografadas, o alcance dos diálogos, não no acessório, mas no essencial: O esquema, o arranjo, o estratagema, a batota…

O assunto está resolvido, porque vivemos num Estado de Direito. As escutas devem ser destruídas e os desobedientes punidos. Pessoalmente, porém preferia viver num estado de verdade, de justiça, como gostaria que ela fosse, irrepreensivelmente justa e não resultado de aplicação cega, e também surda, de leis e mais leis, algumas cujas interpretações convidam a interminável espaço de discussão… e nenhuma consequência.

Desiluda-se quem pensar que, apesar do barulho provocado, o Apito Dourado vai contribuir para a purificação do ambiente futebolístico. As escutas agora apresentadas como novas apenas oferecem coisas velhas: as conversas e… os intérpretes, entre administradores, directores, amigos e afins, quase todos da área social do FC Porto.

 

NO DN de domingo reparei em uma notícia sobre um procurador adjunto suspenso por um ano, dado ter pretendido vender um bilhete para o concerto de Madonna por 450 euros quando o preço era de 60. Estamos a falar de um procurador adjunto, por isso sugere a prudência e devido recato. Espantoso é o facto de o magistrado apanhado ter pretendido inverter os papéis. Isto é, transferir o ónus de quem vendeu, para quem comprou, com o objectivo de desmascarar uma ilegalidade, o inspector da ASAE. A proposta de demissão de funções foi atenuada para um ano de suspensão, o que significa que o dito procurador, mais mês, menos mês, volta a andar por aí, em funções, legitimado pela lei, mas não pela moral. É como no futebol, continuam também por aí, ufanos e ilibados. Nada mudou.

 

COM a irritação que o caracteriza quando se cruza com o Benfica, Domingos Paciência anunciou que pretendia sair da Luz com cinco pontos de vantagem. Perdeu, mas não se convenceu. Disse ele que o pessoal de Jesus acabou o jogo encostado à sua área, amedrontado, por certo, e a queimar tempo. É a opinião dele. A minha diverge: pelo que vi na televisão, sugiro a Domingos a humildade que tem tido noutras situações e agradeça a quem quiser por não regressar a Braga com outra derrota pesada no bornal. Não lhe retiro o mérito, mas a sorte foi boa companheira. Uma coisa é deixar andar, jogar para o empate ou apostar no erro contrário (Braga); outra, substancialmente diferente, é assumir a iniciativa desde o primeiro minuto, jogar declaradamente para vencer, construir várias oportunidades de golo (Benfica).

Autor: Fernando Guerra

Fonte: A Bola

publicado por Benfica 73 às 14:37

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