Dezembro 06 2012

No topo da classificação, no duelo entre o FC Porto e o Benfica não há quem descole. O campeonato ganha em brilho e em emoção no que respeita à discussão maior. O que os dois arquirrivais demonstraram neste primeiro terço da época é que a distância entre eles é quase nada e que a distância deles para os outros todos é enorme, salvo prova em contrário.
A queda abrupta do Sporting de Braga para posições a que já não estava de todo acostumado é a novidade maior desta Liga de 2011/2012 quando falta pouco menos de um mês do Natal. Os analistas dados às forças do ocultismo dirão que o Sporting de Braga anda a penar com as alminhas desde que o seu presidente, António Salvador, lhe proclamou a ascensão ao estatuto de terceiro “grande” do futebol português.
A presunção estava lá toda. Faltou, no entanto, a água benta.
E como? E porquê?
Está aberta a época dos clássicos do futebol português, sejam os ditos clássicos de primeira, de segunda ou de terceira geração, precisamente como são estes a que me vou referir. Tomemos, assim, por exemplo os dois últimos desses clássicos, os que opuseram o Sporting de Braga ao Sporting, em Lisboa, e o mesmo Sporting de Braga ao FC Porto, em Braga, e que redundaram em duas derrotas que muito atrasam os minhotos na luta pelo topo da tabela.
Diga-se que o Sporting de Braga dominou como muito bem quis a segunda parte do jogo de Alvalade e, depois, jogou taco-a-taco com o FC Porto, quase anulando as diferenças entre os dois. Mas perdeu sempre porque lhe faltou água benta em ambas as ocasiões.
O campeonato português seguia relativamente tranquilo até à chegada dos primeiros clássicos do calendário. Mas já se sabe que com os clássicos chegam também os nossos valorosos árbitros internacionais e como não há belas sem senão… lá regressa em todo o seu esplendor o protagonismo de quem não devia.

O mau momento do Sporting é um exclusivo dos sportinguistas e não fica bem aos adversários (mais ou menos histórico) dos “leões” de Alvalade perorar soluções, apontar incompetências ou espicaçar ânimos e desânimos com graçolas cruéis. 
Todos os clubes têm os seus problemas para resolver e, atendendo à conjuntura actual, são muitas e variadas essas contrariedades. A questão com o Sporting é que a somar aos óbices da conjuntura ainda tem de suportar a infeliz carreira da sua equipa de futebol. Deixemos, portanto, os nossos amigos sportinguistas tratarem do seu Sporting em paz. Não façamos aos outros o que não gostamos que nos façam a nós, um preceito antigo e sempre válido.
Grandeza é isto: não menosprezar jamais o grande adversário, não fanfarronar estupidamente a propósito da iminente visita a Alvalade e se é para falar do Sporting do momento presente só vale se for para apontar o que funciona bem, ou seja, as coisas boas. E há coisas boas e que funcionam bem em Alvalade.
O presidente, por exemplo. 
A equipa de futebol saiu de Moreira de Cónegos mais longe de todos os seus objectivos e o treinador, mais um, saiu de rastos. Já o presidente saiu em grande e bastou atentar nas primeiras páginas dos jornais do dia seguinte para se concluir, de forma inapelável, que o responsável pela reviravolta no resultado no decorrer da segunda parte foi Godinho Lopes.
Não foi por ter sido rápido e codicioso nos três minutos que se viu a jogar contra 10, por impedimento físico de um jogador adversário a receber tratamento fora das quatro linhas, que o Sporting chegou ao empate em Moreira de Cónegos. Não, nada disso.
Foi porque o presidente desceu ao balneário ao intervalo, quando a equipa perdia por 2-0, e abanou energicamente os jogadores para que despertassem para os derradeiros 45 minutos que o milagre acabou por acontecer.
Com um presidente destes nem é preciso treinador. 


Dois dos emblemas mais ricos do mundo, certamente entre os mais esbanjadores dos últimos tempos, encontraram-se na tarde deste último domingo, um banalíssimo domingo londrino de chuva, e ofereceram um espectáculo sem grandes motivos de interesse posto que as duas equipas persistiram em jogar longe da baliza do adversário, aparentando maior medo de perder o jogo do que vontade de o ganhar, eis a triste conclusão a que se chegou quando o embate de Stamford Bridge chegou ao fim.
O resultado saldou-se num zero-a-zero desconsolador para quem esperaria que os incontáveis cabedais do russo do Chelsea e dos árabes do Manchester City e as respectivas colecções de vedetas em campo chegassem e sobrassem para produzir um duelo a transbordar de golos e de bom futebol. Pelo contrário, o jogo redundou num milionário aborrecimento.
Dinheiro a mais, futebol a menos. Às vezes também acontece.
No nosso futebol, à nossa medida, também há ricos e pobres. Chamamos-lhes grandes e pequenos, uma maneira simpática de colocar a premente questão das diferenças evitando falar de dinheiro. 
O Vitória de Setúbal e o Rio Ave, com todo o respeito, fazem parte do campeonato dos pequenos o que não os impediu de apresentarem no domingo, no Bonfim, um agradável espectáculo de se ver, com 8 golos e com dois “hat-tricks”, um para cada lado, pelos inacreditáveis e veteranos goleadores das suas equipas. Já lá vão 10 jornadas da Liga e Meyong e João Tomás disputam taco-a-taco, sem complexos, com as superestrelas Jackson Martínez e Óscar Cardozo a corrida pela “Bola de Prata”.
No futebol há lugar para todos. Às vezes também acontece.

As recentes eleições na Catalunha também meteram futebol ao barulho. Joan Laporta, o político catalão que foi presidente do Barcelona, sugeriu uma Liga ibérica onde o Barcelona pudesse competir com o mesmo estatuto “independentista” de alguns clubes portugueses de top. 
Em Espanha, e na própria Catalunha, ninguém levou muito a sério esta ideia de Laporta. Em Portugal, felizmente, também não. Já cá temos problemas de sobra.

Ao contrário do que já aconteceu e continua a acontecer com inúmeros colegas seus de origem sul-americana, o argentino Juan Iturbe tem vindo a falhar estrondosamente as suas legítimas tentativas para se impor na equipa principal do FC Porto.
É verdade que só podem jogar onze de cada vez mas também não deixa de ser uma evidência que esta deve ser uma situação totalmente estranha e inesperada para o jovem Iturbe, a quem na Argentina chamavam de “o novo Messi” e a quem em Portugal ninguém chama coisa nenhuma porque raramente é visto a jogar.
Ninguém lhe chama coisa nenhuma? Não é bem assim… Dá conta a imprensa da especialidade que, aproveitando mais uma folga, Juan Iturbe optou por se deslocar em passeio até à capital e, fazendo-se fotografar junto à Torre de Belém, divulgou a referida imagem pelas redes sociais. Diz que agora lhe chamam “mouro” e no que se foi meter.


De uma entrevista antiga de Guilherme Espírito Santo, campeão de campeões no Benfica, 4 campeonatos de futebol, 3 Taças de Portugal, 147 golos em 207 jogos, e também recordista nacional do salto em altura, campeão nacional de salto em comprimento e de triplo salto:
- Naquele tempo, existiam alguns preconceitos racistas por causa dos jogadores de cor. Um dia, em 1947, num hotel da Madeira, queriam colocar-me num anexo por ser negro. Os jogadores do Benfica disseram que para onde eu fosse eles também iam. E acabámos todos a dormir no anexo.
Guilherme Espírito Santo, um símbolo do símbolo.

Autor: Leonor Pinhão

Fonte: A Bola

publicado por Benfica 73 às 03:35

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