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Toda a informação sobre o Glorioso

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A nova vida de Quique

29.08.10, Benfica 73

”Sei bem por que despedem treinadores: porque perdem. Só não percebo porque os contratam. É um mistério tão grande como o da Coca-Cola”. Juan Manuel Lillo, treinador do Almería, é um colecionador de pérolas deste género e uma das figuras mais fascinantes do futebol espanhol. Vive num estilo desalinhado, nunca passou por clubes de topo, mas há quem garanta que é apenas uma questão de tempo. O mistério que Lillo compara à Coca-Cola é uma realidade que não distingue competência. Ainda há pouco mais de um ano o Benfica despediu aquele que é hoje um dos treinadores da moda – Quique Sánchez Flores.

Nunca se percebeu muito bem durante a sua passagem por Portugal se Quique era ou não o tal “mestre” que tinha deixado tão boa impressão no Valencia. Anunciava-se a chegada de um metodólogo de fina qualidade, que viria implementar na Luz processos de treino vanguardistas e enquadrar as águias, a este nível, na primeira divisão europeia. Era essa a grande promessa e, ainda por cima, vivia-se o tempo do revolucionário LORD – Laboratório de Otimização do Rendimento Desportivo, à medida de estudiosos e apreciadores de uma linha mais científica. O desenho parecia compor-se na perfeição para aquele treinador simpático e afável, que adorava falar de futebol na altura em que ainda existiam conferências de imprensa no Seixal.

O Benfica de Quique prometeu muito, mas na verdade nunca chegou a ser brilhante. Pelo contrário, era mais enfadonho do que entusiasmante. Ainda foram semeadas ideias interessantes e os adeptos mais atentos lembram com facilidade a semana em que os encarnados derrotaram, no espaço de cinco dias, Nápoles e Sporting, ambos pelo mesmo resultado (2-0). À distância dá para recordar que o modelo de jogo pretendido pelo espanhol estava acima de tudo. Primeiro o molde, depois o resto. Miguel Vítor fazia dupla com Sidnei; Jorge Ribeiro era o titular no lado esquerdo da defesa, Yebda mandava no centro e Nuno Gomes marcava golos. Parece que foi há uma eternidade, mas não: foi no final de 2008.

Faltou paciência na Luz para um treinador que talvez merecesse mais tempo e outras oportunidades, mesmo considerando que cometeu erros de avaliação e se precipitou nalgumas decisões que resultaram em verdadeiros desastres (Balboa é um exemplo). Pior do que tudo: demorou uma eternidade a entender que o futebol português é como é e não como nós gostaríamos que fosse. É possível criticar Quique por ter deixado Cardozo no banco ou posto Aimar a jogar longe da sua posição natural. É possível criticar a ausência de um plano B para o futebol dos encarnados, razão porque o Benfica jogava da mesma forma contra todos os adversários, fossem eles o poderoso FC Porto ou o modesto Trofense. É possível pegarmos por onde quisermos.

O problema para a coleção de inimigos que deixou em Portugal é que Quique Flores está hoje entre aqueles cujo valor não se discute, depois de ter pegado nos cacos do Atlético Madrid para fazer o que parecia impossível: vitória na Liga Europa, finalista da Taça do Rei e vencedor da Supertaça Europeia, com uma lição tática ao Inter que durou do primeiro ao último minuto. O futebol tem destas coisas, felizmente.

Autor: Nuno Farinha

Fonte: Record