Abril 06 2012

Vítor Pereira (refiro-me ao presidente da Comissão de Arbitragem e não ao treinador do FC Porto) decidiu esconder as nomeações dos árbitros para a última jornada do campeonato e a coisa até lhe correu bem. Houve inusitado sossego no país nos dias que antecederam a acção e depois não houve grandes protestos sobre o trabalho dos árbitros em todos os jogos da ronda 25. Talvez não tenha sido apenas uma coincidência feliz. 
E, pelo menos, dá que pensar e logo numa jornada em que houve um confronto entre rivais directos, candidatos ao título, e que terminou com a vitória de uma equipa, a consequente derrota da outra e com uma grande penalidade pelo meio, o que poderia dar azo a grandes lamentações se, porventura, Vítor Pereira não tivesse escondido João Ferreira até praticamente ao momento em que o árbitro subiu ao relvado do Estádio da Luz.
Ou se, porventura também, não tivesse sido tão espampanante a cabeçada do desastrado Elderson no doutor Bruno César, especialista em reanimações. Pormenor que, para o caso, pouco ou nada interessa.
Porque o que de relevante aconteceu nesta última jornada foi uma ausência de casos e uma ausência de tal monta que quase deixou sem assunto de conversa 10 milhões de portugueses. Isto é subversivo, notem bem. Sem com que dizer mal dos árbitros durante uma semana inteira poderão os nacionais dedicar-se a observar a sua própria realidade com consequências funestas para o sossego do país.
E nesta estamos. Temos de optar entre o sossego dos árbitros e o sossego do país.
Voltemos ao futebol. No último fim-de-semana não houve queixas contra os árbitros, foi a regra. O presidente do Sporting de Braga e o guarda-redes do Sporting de Braga deram-se ao luxo de poder dizer que houve motivo para a grande penalidade com que o Benfica inaugurou o marcador.
Quanto à excepção a este estado de harmonia geral, registe-se com muito boa vontade um curtíssimo lamento de Sérgio Conceição, treinador do Olhanense, no final do jogo que disputou com o FC Porto. E nem de um lamento se trata. Foi antes uma delicadeza: “Houve um erro ou outro por parte da arbitragem, sem relevância, que também não ajudou o nosso objectivo”, bem dito.
Na Marinha Grande, se quiserem outro exemplo, esteve Pedro Proença a dirigir o jogo entre a União de Leiria e o Sporting e também se registou um não-caso que, sem o árbitro ter sido escondido, poderia ter resultado num caso de enormes proporções. E por ser já um árbitro com traquejo em apagões, Proença lidou muito melhor com a falta de energia na Marinha Grande na noite de domingo do que terá lidado com a falta de energia em Braga quando o Benfica foi lá jogar em Novembro.
Tudo isto para dizer, com toda a franqueza, que a medida de Vítor Pereira foi ajuizada. E poderia até instituir-se como preceito a observar daqui para a frente em prol do sossego dos árbitros e do consequente desassossego social que se instalaria no país por falta de assunto sobre árbitros.
A Liga portuguesa é a mais competitiva da Europa, dizem os especialistas estrangeiros surpreendidos com a novidade. E se para a manter a competição acesa até ao fim sem declarar guerra aos árbitros é necessário transformá-los nas noivas do futebol, que repiquem os sinos das igrejas. Se uma noiva que se preze só se descobre à chegada ao altar, um árbitro que se preza só se descobre à saída da cabina.
E assim seremos todos muito felizes para sempre.

Permitam-me que partilhe uma surpresa enorme que tive esta semana. Penso que a grande a maioria dos leitores se sentirá tão surpreendida quanto eu. Sabiam que aquela coisa do Apito Dourado ainda não acabou? Eu, honestamente, não sabia. Pensava que o dito processo estava já morto e enterrado há muito tempo. Mas não. Ainda anda por aí, pelos tribunais. 
Mas anda muito devagarinho como tive oportunidade de constatar ao ler uma notícia do semanário “Sol” que dizia ter sido instaurado “um inquérito, a pedido do Conselho Superior da Magistratura, para investigar o que se passou na secretaria do Tribunal da Relação do Porto que fez com que o processo principal do Apito Dourado ficasse um ano parado de forma anómala”.
O que se terá então passado na secretaria para que, segundo o “Sol”, estejam agora “a prescrever os crimes de corrupção passiva” e “os 11 arguidos condenados ficarão impunes”?
Bola e justiça, são mundos diferentes.
Em futebol, a expressão “ganhar na secretaria” não abona os vencedores. Na justiça, que é um assunto sério e tem outros léxicos, as coisas não se passarão assim de certeza absoluta.

Na minha opinião, o FC Porto demorou uma enormidade a desmentir a notícia deste jornal que dava como certa a saída de Vítor Pereira (refiro-me ao treinador e não ao presidente dos árbitros) no final desta temporada, caso ganhe ou caso perca o campeonato.
A notícia de “A Bola” foi para a rua ainda madrugada, quando os jornais se começam a vender nos quiosques, nas estações de comboio e em todos os apeadeiros. O desmentido só surgiu aos olhos do grande público ao princípio da tarde quando alguns “sites” reproduziram o comunicado oficial e furibundo do FC Porto.
Nem que fossem 15 minutos… mas passou, de facto, muito tempo. Devem ter sido longa a agonia de Vítor Pereira à espera de que a entidade patronal fizesse publicamente o que lhe competia.
No seu comunicado, o FC Porto acusa “A Bola” de estar a prestar um favor ao Benfica porque é ao Benfica que “interessa” a notícia, presume-se que pelo efeito desestabilizador potencialmente causado no balneário do Dragão. 
Também na minha opinião, ao deixar passar tanto tempo – nem que fossem 15 minutos… - até ao desmentido oficial, o FC Porto terá inadvertidamente desestabilizado mais Vítor Pereira do que a notícia de “A Bola”. Mas opiniões são opiniões.
O FC Porto promete responder com vitórias e com o tempo às “infelizes mentes” que produziram a provocação.
Com o devido respeito, penso que o FC Porto não está a ver bem a situação. É que a coisa ainda é mais grave do que parece e sempre, claro está, em função dos interesses do Benfica. Porque, certamente por absurdo, é para os benfiquistas muito importante que, caso ganhe ou caso perca o campeonato, Vítor Pereira continue a ser treinador do FC Porto no próximo ano.
E depois deste desmentido tão veementemente ofendido do FC Porto, torna-se mais difícil que isso não aconteça. A partir de agora é uma questão de egos. E lá mais para diante se verá quem estava a falar a sério e quem estava a falar a brincar.

Ontem, em Londres o Benfica portou-se muito bem jogando mais de metade do jogo com menos um jogador do que o adversário. Compreende-se o desejo de Jorge Jesus de encontrar o Chelsea nesta fase da competição. Em inferioridade, o Benfica atacou a baliza do Chelsea toda a segunda parte, conseguiu marcar um golo e criou inúmeras oportunidades.
Não foi por causa de ter jogado com dois centrais de recurso que o Benfica perdeu a eliminatória em Stamford Bridge. Em futebol-futebol, o Benfica teve sempre argumentos para os ingleses. E ontem esses argumentos estiveram quase sempre à vista.
Quanto aos outros argumentos, quer na Luz quer em Londres, ficou provado que, de facto, o Benfica não os tem.
Descansem bem. Porque bem merecem.

Autor: Leonor Pinhão

Fonte: A Bola

publicado por Benfica 73 às 00:17

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