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Toda a informação sobre o Glorioso

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Toda a informação sobre o Glorioso

Nico e Toto

27.02.11, Benfica 73

Depois de uns meses à procura do norte, Jorge Jesus voltou a adotar nas últimas semanas e ontem à noite, em especial, um discurso algo sobranceiro para os adversários, que se admite pela digestão fácil de uma série longa de triunfos, mas que contrasta flagrantemente com a humildade que conseguiu impor no seio da equipa. O Benfica venceu em Alvalade porque teve força mental e física para arregaçar mangas e lutar pelo resultado, superando todos os elementos adversos, a começar por um longo período em inferioridade numérica. Foi o triunfo do Benfica humilde e lutador de Jorge Jesus, embora na cabeça de Soares Dias também se tenha chegado a confundir com o Benfica “caceteiro” de outros tempos desta época.

No seu português simples e de balneário, Jesus usou, quiçá involuntariamente, uma imagem eloquente para definir a sua equipa. “Nico e Toto”, diz ele com carinho, têm formado a dupla de jogadores decisivos e de grande influência e classe neste ciclo de vitórias consecutivas, somando golos e assistências em número já superior ao que tinha projetado para os grandes negócios do ano passado os antecessores, Di María e Ramires. Pois Nico e Toto, assim, sem apelidos, são também a imagem de modéstia plasmada na capacidade coletiva de sofrer em momentos de adversidade, como o vivido ontem perante a sanha executória do árbitro portuense no primeiro tempo, com um cartão a cada duas faltas. Nico e Toto não passavam de vértices laterais de um conjunto homogéneo e harmonioso, entregues à luta com humildade, mentalmente preparados para passarem por mais um jogo com a mesma evidência discreta dos restantes companheiros.

Enem nos momentos em que emergiram, acima de todos, para assinarem o triunfo, Gaitán e Salvio deixaram de ser Nico e Toto, vistos de fora o n.º 20 e o n.º 8, entidades anónimas num conjunto de individualidades bastante acima da média. Embora o Benfica já não tenha probabilidades razoáveis de chegar ao título, o trabalho realizado em contrarrelógio nos últimos meses por Jorge Jesus, transformando o que chegou a parecer uma trupe de nicos, totós e ranhetas, sem rei nem roque, numa grande equipa de futebol, liderada por Gaitán e Salvio, justifica a intranquilidade que se projeta do quadrante portista desde a passagem do ano.

Os próximos confrontos com o líder da Liga ameaçam tirar brilho à anunciada conquista de André Villas-Boas, quando a autoestima elevada de Jorge Jesus colocar à frente das discussões pontuais a qualidade das notas artísticas dos seus rapazes. E estaremos, então, perante mais um confronto clássico da comunicação nacional, tal como oportunamente denunciado por Vítor Baía: a palidez da marca do FC Porto, apesar dos jogadores hipervalorizados e de méritos incomparáveis, frente à projeção do despojo de figuras saídas do desconhecimento, vestidas de vermelho com o país aos seus pés.

Jorge Jesus, tantas vezes desfrutado por uma alegada deficiência de comunicação, continua a justificar estudo dos gurus do marketing desportivo, contrariando todos os clichés e compêndios. Do nada, criou “Nico e Toto”, uma nova marca para valer milhões – e não apenas dentro das quatro linhas.

Autor: JOÃO QUERIDO MANHA
Fonte: Record