Setembro 06 2015
 

R: Não renovou pelo Benfica por não se sentir desejado ou houve qualquer outra razão?

JORGE JESUS – Não me senti desejado. Quando trabalhas num clube durante 6 anos e estás à espera dos últimos dias para te convidarem a renovar, porque há uma política desportiva diferente… Eu aceito isso e não me custa nada entender que fosse para mudar a página, é normal. Tive de ir à minha vida, mas dentro da ideia de que seria eu a escolher o meu futuro e não aceitar que fossem outras pessoas a impor-mo. Ao longo da minha vida como treinador sempre pensei pela minha cabeça, nunca pela dos meus agentes nem pelas de quem me rodeia.

R: Pela forma como quase não festejou o título, no Marquês, já deixou entender que nem tudo estava bem...

JJ – Se calhar não festejei assim tanto porque já não era novidade para mim, era o terceiro ano, nada mais que isso. Naquele dia, se calhar as coisas não foram organizadas da melhor forma. Sentia-me feliz, claro, talvez não estivesse tão eufórico. Penso que a festa deveria ter sido mais espontânea, mais direcionada para os jogadores e feita em maior proximidade com os adeptos. Achei que estes estavam muito afastados. Pensei que aquela não era a melhor maneira de festejar o título, só isso. Compreendo que as coisas têm de ser organizadas, mas não sentimos, eu e os jogadores, que aquilo fosse festa de proximidade com os adeptos. Por isso estava um tanto frio.


R: Na passadeira, esperou pelo presidente por alguma razão?

JJ – Uma das coisas que considerei incorreta foi a chamada individual dos jogadores. Aquilo era uma festa de todos, não a apresentação da equipa. Devíamos entrar todos unidos e o presidente no meio de nós. Já que fomos chamados um a um, achei que, pelo menos, deveria entrar ao lado do presidente.


R: Com Vieira, a festejar o título, pensava que dali por uns dias teria o contrato renovado?

JJ – Não. À medida que o campeonato se aproximava do fim fui sentindo que a política do Benfica não passava por mim. Tenho muitos anos de futebol e na altura convivia há 6 anos com aquela instituição, logo, senti que não iria continuar. Não houve nesse processo nada de anormal. O Benfica tomou a sua decisão e eu tive de aceitá-la. A partir do momento em que percebi que não era uma peça preponderante para o futuro do Benfica, aceitei-o com normalidade. Da mesma forma que aceitei como normal o facto de o presidente me convidar para ir para o Benfica, porque acreditou em mim – e estou-lhe agradecido por isso -, também considerei que no momento em que ele quisesse romper com a ideia desportiva em vigor, teria todo o direito de o fazer.


R: Mas o presidente do Benfica disse numa entrevista a Record que foi o Jorge quem não quis continuar no Benfica…

JJ – Bom, isso já não é normal, porque depois da estrutura do Benfica tomar uma decisão, eu tenho o direito de escolher o clube onde quero trabalhar. Não posso escolher o clube que as pessoas ligadas ao Benfica gostavam.


R: Já falou com Luís Filipe Vieira depois de assinar pelo Sporting?

JJ – Não houve aproximação ao que era a nossa relação. Foram 6 anos a partilhar alegrias e tristezas. Depois surgiram questões no meio da minha ida para o Sporting que me afastaram do presidente do Benfica. Estou agradecido ao Benfica, mas penso que também ajudei a que o clube fizesse a recuperação que fez nestes 6 anos.


R: Essas questões são o processo que o Benfica lhe moveu e o salário que não lhe pagou? Não falou sobre isso com Luís Filipe Vieira?

JJ – Falei, falei. Nada disto tinha justificação para acontecer. Nunca percebi essa estratégia. Mas creio que não merecia ser envolvido nisto. Não fui eu quem tomou a decisão de não continuar no Benfica.


R: Entende o alcance daquilo a que chama estratégia?

JJ – Não entendo. Se é para tentar desestabilizar-me, os factos do início da época demonstram que isso não tirou rendimento ao Sporting. Na Liga vamos à frente do Benfica e no primeiro troféu disputado, a Supertaça, foi o Sporting que saiu vencedor, derrotando o campeão, o Benfica.


R: Isto não será a consequência de o Benfica ter perdido o Jesus para o Sporting?

JJ – Mas se eles me perderam foi porque o quiseram. Eles é que mudaram a política desportiva. Não tenho de os censurar. Acharam que era o caminho certo para o Benfica, tudo bem. E eu achei que o meu caminho seria outro. Não podia era ser o caminho que eles queriam. O presidente do Benfica tem toda a autonomia e legitimidade para decidir a política desportiva do clube, mas não pode querer controlar a minha vida. Para ele, o que era importante era eu não ficar em Portugal, mas eu sabia que não permanecendo no Benfica continuaria a trabalhar por cá.


R: O Benfica argumenta que antes da Liga terminar já teria sido sondado por alguém ligado ao Sporting...

JJ – Não, não. Isso não é verdade, mas mesmo que tivesse acontecido, o que é que o Benfica tinha a ver com isso? Vivemos num país democrático, onde o trabalhador tem o direito e a autonomia para decidir sobre o local onde pretende exercer a profissão. O 25 de Abril já aconteceu em 1974. Sou livre para tomar as minhas decisões. O presidente do Benfica conhece-me como ninguém, sabe que só penso pela minha cabeça. Mas ele achou que era capaz de controlar o meu futuro e enganou-se. Naquele momento nunca me passou pela cabeça ser treinador do Sporting. No entanto, existiram uma série de coisas que me levaram a pensar que seria capaz de ficar a trabalhar em Portugal, mas não no Sporting.


R: No FC Porto?

JJ – (Sem resposta)

R: A partir do momento em que aceitou encontrar-se com Bruno de Carvalho, ficar na Luz deixou de ser hipótese?

JJ – Claro. A partir do momento em que tive uma reunião com o presidente do Benfica e fiquei a saber que a política desportiva não passava pela minha continuidade, porque o clube queria fechar o ciclo, fui ver da minha vida. Ele achou e bem, repito, que era o momento de fechar o ciclo. Percebi isso perfeitamente. Mas também percebi que não iria permitir que fossem eles a condicionar o meu caminho.

 

R: Alguma vez pensou ser possível receber, no final da época, um convite do Sporting?

JJ – Nunca. Esperava mais rapidamente sair do Benfica para outro clube.

R: Para o FC Porto?

JJ – (Sem resposta).

R: Chegou a existir algum convite? JJ – Não vou falar disso. É uma questão que não interessa partilhar. Mas a partir do momento em que surgiu a possibilidade Sporting, para a qual nem estava preparado porque não pensava ser possível, achei que devia aceitar, até porque devido a razões familiares o meu interesse era o de ficar em Portugal, perto do meu pai.

 

R: Tinha a viagem de férias marcada para uma 5.ª feira (4 de junho) e teve de adiá-la para sábado. Pensava que tudo seria tratado rapidamente, depois da reunião com Vieira (1 de junho)?

JJ – Sim, nem fui eu que marquei as férias, foi um amigo, o Vítor. Ele marcou-as e aconteceu o que aconteceu. Para mim foi tudo muito surpreendente. Não estava preparado para não ficar no Benfica, nem para receber, passados uns dias, um telefonema de um dirigente do Sporting a perguntar-me se Bruno de Carvalho podia falar comigo. Houve muita especulação em torno da minha passagem do Benfica para o Sporting. Disseram-se muitas mentiras. Nunca esteve nada preparado. Com o Sporting, aconteceu tudo entre 3.ª feira e a 5.ª feira.

 

R – O Benfica diz que teve conhecimento do interesse do Sporting antes da reunião com Vieira…

JJ – Tudo mentira! As pessoas inteligentes que andam no futebol também percebem as coisas: se estamos no final do campeonato, com o Benfica campeão antes da última jornada, e o Jesus ainda não renovou contrato, se calhar há aqui uma possibilidade de montar-se uma estratégia em relação à possibilidade de o contratar. Provavelmente foi isso que o Sporting pensou e fez. Acabou por surgir-me a hipótese de ficar em Portugal, tal como surgiram muitas outras possibilidades, através do meu agente, para ir para o estrangeiro. Quando percebi que a hipótese de continuar cá era real nem pensei duas vezes.

 

R: Nem as ofertas mais atrativas o fizeram pensar?

JJ – Nada. E olhem que abdiquei de muito dinheiro. Uma coisa é trabalhares em Portugal e pagares, como pago, 60 por cento de contribuições, outra coisa é a carga fiscal, muito menor, nos países para os quais recebi convites: Turquia, Itália e Rússia, não contando com Qatar e China porque para mim esses nem eram hipótese. Eram propostas, em média, para ganhar três vezes mais em termos líquidos devido à diferença do valor dos impostos. Tirando este meu último contrato no Benfica, nunca fui habituado a ganhar muito dinheiro ao longo da carreira. A minha satisfação, a minha paixão, está no treino, na obtenção dos objetivos desportivos. Foi sempre em função disso que geri a carreira. No Benfica fiz um bom contrato depois de ser campeão no primeiro ano. Mas para vir treinar o Benfica tive de pagar 400 mil euros ao Sp. Braga, ganhando 500 mil no primeiro contrato com o Benfica. Ganhei 100 mil euros em salários, mas tinha um bom prémio no caso de ser campeão. Foi aí que arrisquei.

 

R: É depois disso que faz o primeiro contrato milionário?

JJ – No final da época avisei o Benfica que havia um clube em Portugal disponível a pagar-me muito mais. Tive a honestidade de lhes explicar o que se estava a passar e o que é que aconteceu? Nos anos seguintes passei a ser acusado de ter feito chantagem. A partir daquela altura disse: ‘Na próxima vez em que algum clube estiver interessado em mim vocês não vão saber qual é, para não voltarem a acusar-me de ser chantagista.’ E assim fiz. Ao longo destes anos nunca contei ao Benfica quais os clubes que falaram comigo, que estiveram interessados em mim. Por acaso, não foi esse o caso com o Sporting, com quem falei apenas depois de perceber que não ficaria no Benfica.

 

R: Alguma vez se interrogou sobre a proveniência do dinheiro do Sporting para lhe pagar o salário? As pessoas interrogam-se porque recebe bem mais que os anteriores treinadores…

JJ – Onde e como a entidade patronal vai arranjar dinheiro para me pagar não me preocupa. Mas não me preocupa no Sporting, como não me preocupou no Belenenses, no Sp. Braga ou no Benfica. Isso pode causar estranheza em relação aos meus anteriores colegas, embora não faça ideia qual o salário deles. É uma política desportiva à qual não tenho de me opor. E se um presidente considerar que é mais importante ter um treinador como o Jorge Jesus e para isso contar com menos dois jogadores? Em termos de orçamento vai dar tudo ao mesmo. Antes de assinar, falei apenas duas vezes com o presidente Bruno de Carvalho. E quando fui para a primeira conversa pensei: ‘Estas pessoas devem querer-me mesmo muito porque sabem aquilo que ganho.’ O meu salário era do conhecimento público. Percebi logo que a vontade dele era tão grande que nem discuti números. Zero.

 

R: Aceitou logo a proposta?

JJ – Disse a Bruno de Carvalho: ‘Você sabe aquilo que eu ganho por isso faça-me a proposta. Se estiver de acordo com ela assino já.’ Ele fez-me a proposta e eu disse-lhe: ‘Aceito.’ Não lhe pedi rigorosamente nada, zero!

 

CICLO IRREPETÍVEL DE SEIS ÉPOCAS

R: Será possível, nos próximos anos, algum treinador estar à frente de um clube grande durante 6 temporadas?

JJ – Não. Não acredito que qualquer outro treinador consiga estar 6 anos num grande clube português. Nem eu sei se conseguirei repetir isso no Sporting. Foram 6 anos fantásticos, com algumas tristezas, sim, mas sabíamos que o caminho certo era aquele, até chegar o momento em que acharam que o ciclo estava terminado.

Fonte: Record

publicado por Benfica 73 às 11:14

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